Reservado

A manhã já começava a arder quando cheguei a Angra dos Reis. Os raios solares batiam na janela do ônibus, aumentando a luminosidade até o ponto em que, após alguns minutos preso entre o sonho e a realidade, vi-me impossibilitado de continuar na primeira opção. Esfreguei os olhos com minha mão incerta das direções que seguia, e olhei ao meu lado para o senhor com quem eu dividia assento, que ainda dormia. Era uma viagem pequena mas cansativa a que me trazia da cidade do Rio de Janeiro para iniciar a semana de trabalho. Trabalhando no setor administrativo em uma pequena rede de farmácias da região de Angra, emprego conseguido com dificuldade em uma época de poucas oportunidades, me via obrigado a ir e voltar periodicamente de uma cidade para a outra como forma de passar os fins de semana com minha esposa e filhos, que ainda tardariam a mudar.

Com a chegada do ônibus na rodoviária, esperei que o senhor ao meu lado acordasse, e que o ônibus lentamente esvaziasse para que eu pudesse pegar a mochila onde guardava meus pertences e também sair, direto para o escritório. Cruzando a praia do Anil, cheguei ao centro da cidade. No trajeto até o trabalho havia pouco que lembrasse os paradisíacos resorts que se esperaria em uma cidade turística: olhando para aquela massa de pessoas se movendo preguiçosamente aqui e acolá na manhã de segunda-feira, fugindo do sol nos exíguos toldos das lojas que se estendiam pela Rua do Comércio, não havia o grande charme que há nos comerciais. Passar pelas ruas entre tantas cabeças, pelo contrário, me causava certa ânsia, nervosismo de driblar aquele grupo que se apertava entre calçadas pequenas e carros que transitavam pela rua de ladrilhos.

Chegando no escritório, comecei as pequenas tarefas do dia. Devo admitir que meu trabalho não é o mais animador: verificar os custos das farmácias da rede, sugerir melhorias na lucratividade, fazer o balanço são algumas das tarefas que tomam o meu dia. Além de enfadonha, minha função carrega consigo certa desvalia moral de incentivar a maximização de dinheiro proveniente, em última instância, da doença das pessoas. Por outro lado, receber um salário evita a minha doença e, de toda forma, o mundo inteiro parece andar mal. Olhando pela janela, posso ver um morador de rua sentado em um trecho um pouco mais largo da calçada, em frente a uma agência bancária. A pobreza me tomou de surpresa quando cheguei a essa cidade: sempre imaginei que os pedintes fossem privilégio das capitais. Quem sabe ele não é um dos clientes da farmácia. Fecho a persiana e me viro para o computador.

No escritório são poucas pessoas. Faço algumas previsões financeiras e converso sobre qualquer assunto com meus colegas de trabalho, bebendo um café para segurar o cansaço da viagem. Logo vai ser hora do almoço, e o sol já se foi, dando lugar a uma chuva fina e rala. Penso que o bom das constantes mudanças de tempo é que estas podem sempre se tornar objeto de conversa, e quando almoçamos isso de fato torna mais fácil o diálogo, sempre voando a esmo entre as mais diversas amenidades.

Na volta o sono começa a ficar forte, e agradeço aos céus quando o relógio me permite sair. Como tenho ficado temporariamente na cidade, me contento em reservar um quarto de hotel enquanto não consigo achar um local para alugar a um preço razoável. O hotel em que me hospedo é próximo da rodoviária, não é muito para andar mas com o cansaço do dia de trabalho convém pegar algum transporte para chegar. Faço o percurso a que já estou acostumado até o ponto de táxi, passando novamente pelas pessoas em marcha, agora voltando para suas casas ou comprando algo nas lojas, e pelo pedinte que havia observado naquele dia de manhã. Ele me pede um troco. Uma pena, estou sem moedas.

Logo chego na entrada do hotel. Passando pela porta, vislumbro o salão iluminado por uma luz fria, que destaca alguns sofás e a recepção. Faço um gesto de saudação com os dois recepcionistas por trás do balcão de mármore, que me saúdam com cortesia e pedem meus documentos. Após checar no computador, informam-me que infelizmente minha reserva não consta no sistema. “Como pode ser? Mas eu sempre fico aqui!”, disse, surpreso pela situação – afinal, já me hospedava ali há algumas semanas, e não havia passado por isso antes. Pensei que talvez uma boa camaradagem com um cliente usual pudesse ajudar a encontrar um quarto. “Desculpe senhor, todos os locais estão ocupados. É realmente necessário reservar com antecedência”. Percebi que eles não me diferenciariam de um cacto se este pudesse se mover e dar boa noite, quanto mais me reconhecer como um cliente usual. Preocupado, perguntei se ele conhecia outro local em que eu pudesse passar a noite, e ele me indicou que seguisse a rua no sentido da Rodovia Rio-Santos, virando para a direita mais à frente e chegaria em outro hotel. Com essa orientação em mente, peguei minhas coisas e parti, não sem antes receber um cortês aceno de despedida do recepcionista no meu caminho até a porta.

Caminhar pela avenida Caravelas Toscano de Brito, uma das grandes ruas de Angra, guarda ainda uma certa calma, dependendo da hora em que se passa. Respirando o ar da noite, meu caminhar era pesado, carregando com cansaço toda aquela constelação de estrelas, a lua, o vento e tudo o que pesava sobre minha cabeça. Cheguei ao fim de um tempo no hotel. Era de maior qualidade, certamente um preço mais caro. Já havia visto as acomodações passando por ali, o fundo dava para uma pequena baía e nos arredores a disparidade entre o luxo turístico e a dura realidade da maioria dos moradores da cidade se fazia presente. Entrei pelo lobby e o recepcionista, localizado do outro lado de um balcão de madeira impecavelmente envernizada, pediu meus documentos. Dei-lhe e tentei explicar meu caso, eu não tinha reserva mas… não consegui terminar a frase e fui notificado de que não havia quartos disponíveis, pois todos estavam ocupados ou reservados. Que azar! Estranhei e perguntei se estava havendo algum evento na cidade. “Senhor, não sei informar, mas é sempre recomendável que se faça a reserva com antecedência. Se você quiser, podemos reservar para a semana que vem”. Bem, isso não adiantava de muita coisa. Respirei fundo e perguntei se conhecia outro hotel: isso ele também não sabia informar, mas ofereceu um táxi. Aceitei e, quando chegou o veículo, pedi que fosse a algum hotel nas redondezas que ainda pudesse ter vagas.

Não se imaginaria que fosse tão difícil dormir em uma noite de segunda-feira Mas o hotel seguinte estava lotado, e o outro, e o outro depois desse. “É, aqui é difícil mesmo, a cidade tem os turistas, por isso é necessário reservar antes”, disse ele. “Sim, é que o hotel perdeu minha reserva”, tentei explicar. “Mas é bom ligar antes para reservar mesmo assim”, foi a resposta dele, o que me fez perceber que ele provavelmente não se importava muito com o que eu dizia. A conversa fazia-se assim, para ocupar o espaço do tempo em que rodávamos pelas intermináveis ruas. Seus olhos cada vez se perdiam mais, o que me dava a impressão de que ele mesmo já não tinha plena ideia de onde estava indo. Após um tempo encontramos mais um hotel, para receber a mesma notícia: todas as acomodações estavam ocupadas ou reservadas. E nada que eu pedisse ou argumentasse demovia os recepcionistas da ideia de que não poderiam encontrar um quarto que estivesse livre.

O que poderia fazer? Que estranho desígnio moldava meus passos neste dia? A noite ia ficando mais fria, o cansaço parecia pesar os movimentos e, ao cabo de um tempo, parecia pesar também os pensamentos. Já desgastado com a procura em vão e preocupado com a conta crescente no taxímetro, pedi que o motorista me levasse de volta à rodoviária. Ali poderia sentar um pouco sozinho, quem sabe ter alguma ideia diferente. Ele deixou-me, não sem antes solicitamente dar o seu número caso eu precisasse de mais ajuda e lembrar novamente que “nessas coisas de estadia bom mesmo é dar uma ligada antes para garantir que tem lugar”, enquanto dava partida no carro para ir embora.

Naquela rodoviária bastante modesta, eu já me sentia mais familiarizado, ao menos. Sentar-se, no entanto, não parecia possível: as pessoas estavam esperando a saída dos ônibus e as cadeiras onde eu poderia sentar estavam todas ocupadas. Sem querer mais ficar em pé, sentei no chão e apoiei minhas costas em uma parede, respirando fundo e repassando o meu dia em mente. Pensei na viagem, pensei no trabalho, nas voltas pela cidade. Olhei para o relógio, eram quase nove e meia da noite. Lembrei da minha família, a essa hora eles estavam em casa, provavelmente vendo televisão. Será que sentiam falta de mim? Será que minha esposa se preocuparia de eu não ter ligado até agora? Enviei uma mensagem de texto dizendo que já estava no hotel e estava tudo bem, para que ela não ficasse preocupada. Estava assim, pensando, pensando, e de repente senti uma pancada na costela. “Vamos, acorde!”, disse o segurança da rodoviária. “Não pode dormir na rodoviária”. Levantei a cabeça ainda perdido, e percebi que havia caído no sono. Levantei-me meio desconcertado, sentindo que todos no local olhavam para mim. Olhei o relógio, eram dez da noite.

Resolvi então dar uma caminhada, para acordar e ver se conseguia pensar em algo. Talvez se procurasse mais, pelas cidades vizinhas, e depois voltar… procurei pelo telefone do taxista e liguei, mas o número dava ocupado. Liguei de novo, ocupado outra vez. De toda forma provavelmente não seria uma boa ideia. Caminhando pela rua, vi-me em frente ao primeiro hotel. Quem sabe eles não me deixariam pelo menos descansar em algum local qualquer só hoje, e amanhã achava um local para dormir no resto da semana? “Infelizmente senhor, as regras da casa proíbem esse tipo de coisa. Não podemos abrigar pessoas fora dos quartos. Hoje não temos acomodações, é bom sempre reservar com antecedência.”, disse o recepcionista, sempre cortês. Será o mesmo recepcionista? Olhei para o relógio. Dez e meia, meia hora tinha se passado somente. Cansado e antevendo a tarefa impossível que seria persuadir o recepcionista, voltei para as ruas.

Aquela última conversa só acentuava o absurdo de minha situação. Resolvi que voltaria para o Rio de Janeiro. Explicaria ao meu chefe essa situação e ele haveria de compreender; e se não entendesse, que me demitisse – afinal, qualquer coisa seria melhor do que esse caminhar para lá e para cá sem fim. Voltei novamente para a rodoviária, escapei como pude dos olhares rudes dos seguranças e pedi à recepcionista um bilhete para o Rio de Janeiro. “Senhor, há somente um ônibus saindo ainda essa noite para o Rio e ele já está lotado. Desculpe, mas o senhor terá que comprar para outro dia”, foi a resposta da moça do outro lado do balcão. Isso é impossível, pensei. Tentando encontrar alguma calma sentei em uma cadeira vazia da rodoviária para pensar. “Com licença, o senhor vai embarcar em algum ônibus?” – perguntou o segurança, com cara de poucos amigos – “Rodoviária não é local para se dormir”, disse sem me dar tempo para responder sua pergunta. Vi que alguns funcionários olhavam na nossa direção e me senti envergonhado. Sentindo-me sem opção, coloquei a mochila nas costas com desânimo e saí da rodoviária.

De novo na rua, sentindo que ela diminuía ao meu redor e me apertava, resolvi andar sem direção. O ar, que outrora parecia fonte de calma, agora só aumentava o meu sentimento de frustração. Caminhando uma esquina aqui, outra ali, deparei-me subitamente com o morador de rua que havia visto mais cedo. Estava de novo perto do trabalho sem ter reparado. Olhei o relógio. Onze e dez. Ele dormia. Já me sentindo desnorteado, meus pensamentos confusos fazendo agir por instinto, sentei e encostei-me na parede da agência bancária, ao seu lado. Não seria muito tempo até a manhã vir trazer algo de diferente, bastavam só alguns minutos…

Acordei com um empurrão que por pouco não fez minha cabeça chocar-se contra a parede que separava a agência do estabelecimento seguinte. Assustado, enquanto ainda tentava me lembrar onde estava, senti uma pressão puxando minha mochila. Instintivamente puxei de volta e aos poucos minha lucidez foi voltando, para ver o morador de rua com os olhos arregalados, uma aparência doentia e puxando minha mochila, ao mesmo tempo que gritava “Aqui é meu lugar! Meu lugar!”. Levantei-me de um salto sem largar minha mochila, e assim que consegui puxá-la de suas mãos corri sem olhar para trás, só parando quando o absoluto silêncio da rua me dava certeza de que ele não me seguia. Olhei para o relógio. Eram quase duas da manhã.

A corrida me levou a uma praça com grama verde, em um terreno inclinado que ia dar em uma imponente igreja iluminada. Meu olho pesava, minha perna doía e passando a mão pelo rosto senti minha fronte úmida pelo suor da corrida. Sentei por um tempo ali, observando os carros passarem, desabotoando minha camisa para deixar a noite fria invadir o calor que eu sentia. Respirei fundo e fiz um esforço para tentar manter-me acordado até de manhã, em que seria mais fácil tentar resolver as coisas. No entanto, acordei rolando pela grama, enquanto uma mão me levantava pela gola. “Levanta que a praça não é lugar para vagabundo dormir!”. Olhei para cima e vi a cara de um policial, se avermelhando e escurecendo frente à iluminação propiciada pela sirene do carro. Consegui com esforço me desvencilhar das mãos que me puxavam, disse que eu era trabalhador, amanhã iria para o trabalho e que não tinha para onde ir. Ele respondeu que isso era a conversa de todo vagabundo, e me empurrou para a viatura. Percebi que tinha um outro policial olhando à distância. Desanimado, pensei que talvez nem eu acreditasse no que estava dizendo se não fosse eu a estar nessa situação. Quando estava já para entrar na viatura de polícia ele me deu um último empurrão, dizendo que ali era espaço público, não era lugar de gente como eu.

Deitado em uma pequena prisão, sob ameaças dos policiais, fitava o teto imóvel e a parede descascada, viajando os olhos de um para outro lugar. Mas não foi uma lágrima que escorreu, nem rendi-me ao desespero. Pelo contrário, um sorriso desenhou-se no meu rosto em uma felicidade inesperada até para mim e, naquele lugar apertado, guardado para mim, virei o rosto para o lado, fechei os olhos e flutuei pelas largas asas dos sonhos bons.

Antunes, 2015.


Texto reincluído com alguns poucos ajustes…

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