Uma tarde no litoral

João estava sentado com a cabeça escondida nas mãos. Quem visse o jovem assim, na cadeira da delegacia, imaginaria que ele era o acusado, ainda mais que em cidade pequena a conversa logo espalha. Mas ainda não. João estava junto com outras duas pessoas, Marcelo Serra, seu patrão, e Enzo Serra, seu filho, esperando para serem ouvidos pela polícia. Lá fora alguns repórteres, que o caso havia sido de grande comoção.

A cidade litorânea, normalmente pequena, no verão era tomada por turistas devido aos atrativos naturais e belas praias. Banhavam-se nas cristalinas águas sob o sol quente, dias assim paradisíacos como fizera naquela tarde, quando a lancha em que estavam os três, seu patrão, o filho e ele, perdera o rumo ao sair da margem e passara por cima dos turistas que tomavam banho. Os gritos, a cena grotesca do corpo despedaçado de um dos turistas, cujo nome sequer sabia, ainda com vida mas já dilacerado e aleijado, boiando enquanto o sangue espalhava-se estimulando o interesse dos peixes, que se acumulavam entre os restos mortais agonizantes, não sairia de sua cabeça. Além deste, uma mulher havia morrido no caminho para o hospital e duas pessoas haviam ficado gravemente feridas.

Seu patrão havia ido primeiro conversar com a polícia, na parte interna da delegacia, e por isso estava ali, esperando. João culpava-se por ter deixado Enzo, o filho do patrão, dirigir. Na verdade, não havia propriamente deixado, pois este, embriagado pelas cervejas tomadas no dia na praia, aguardou um momento de distração quando estava preparando a lancha para sair e acelerou. Assim que ele percebeu, correu para tentar corrigir o erro, houve uma disputa e antes de retomar plenamente o controle o desastre já estava feito.

Era nisso que João pensava quando Marcelo Serra chamou o seu nome. Levantou o olho e encontrou o patrão logo a frente da divisa do balcão da polícia, com sua camisa polo branca de marca que delineava seu corpo gordo e os óculos escuros ainda dobrados na gola da camisa. Fez um gesto para que o seguisse e entrou pela delegacia. João seguiu-o, e pararam em uma sala isolada, só com os dois.

A sala tinha duas cadeiras e uma mesa de madeira, bastante simples, e podia ser vista pelo resto da delegacia, do lado de fora. Apesar da situação em que se encontravam, Marcelo não parecia preocupado quando iniciou a conversa:

– João, está tudo bem? – perguntou, como forma de iniciar a conversa, e como recebeu uma resposta positiva, continuou – Pois bem. Conversei com os policiais, eles começarão a nos ouvir. O que eu queria falar contigo é sobre como nós podemos passar essa informação, de maneira a que todos possam sair daqui da melhor forma possível.

– Sim patrão, eu também estou muito triste com o que aconteceu. – disse João, olhando para o semblante tranquilo de seu interlocutor e pensando que, talvez, ele fosse na verdade o único triste com o que aconteceu – Não sei como vamos…

– Sim, uma tragédia – cortou-o Marcelo. João não tentou seguir falando. – Veja, meu filho cometeu um erro. Isso é verdade, mas ele só tem 19 anos, uma vida toda pela frente, cometeu um erro normal de jovem, querendo fazer uma brincadeira depois que bebe, todo mundo já passou por isso, certo? – fez uma pausa mas, como João não fazia gesto de que diria nada, continuou – Pois bem, eu pensei que seria melhor para todos se, nesses relatos, nós tentássemos mostrar o quão acidental foi o ocorrido. Talvez, ao invés de contar todos os detalhes, poderíamos pensar em uma forma melhor. Você era o marinheiro então de toda forma seria culpado pelo que ocorreu – ele dizia isso professoralmente, como se quisesse que João seguisse um raciocínio complexo que ele tentava tornar fácil – a sua punição de qualquer forma será dura. Então se você simplesmente disser que escorregou, digamos, e acelerou o barco acidentalmente. É uma falha humana, pode acontecer.

Disse isso e parou, à espera de uma reação. João permanecia em silêncio.

– Você quer que eu assuma a culpa pela morte dos turistas? – disse o marinheiro, por fim.

– Veja, você vai ser culpado de qualquer forma – falava agora de forma mais dura – e eu estou tentando um acordo para beneficiar os dois. Se você se propuser a ajudar, eu garanto um bom advogado para você, o melhor que há. Você tem família, garoto?

João balançou a cabeça positivamente.

– Então, se chegarmos a um acordo você talvez fique um tempo preso, claro, até a poeira baixar, mas depois a gente te coloca para fora sem problema. E eu vou ajudar a sua família e você a se manterem enquanto isso durar, e é claro que também estou disposto a disponibilizar algum dinheiro para ajudar em outras coisas que você precise, para compensar por todo esse problema.

João não era estudado como Marcelo Serra, mas entendia o que ele queria dizer. Nunca pensara em lidar com algo assim em sua vida, sempre marcada pela tranquilidade dos mares e as dificuldades para manter o pão em casa para a família, formada pela sua mãe e outros dois irmãos, uma vida simples mas correta. Sabia o quanto o patrão era poderoso. João olhava-o, pensativo. Empunhava seu relógio de ouro, que consultava impacientemente esperando pela resposta. Enzo, seu filho, nada tinha de comum com os jovens que conhecia de sua casa e vizinhança. De pele bem cuidada, dançando com as palavras a cada sentença, semelhante ao pai. Sempre falando em tom de brincadeira, nunca havia o tratado mal – na verdade, nunca o tratara, propriamente, pois tinha-o como invisível, o que João preferia, para evitar qualquer problema. Já trabalhava para a família havia um ano, conduzindo a lancha sempre que necessário, além dos cuidados com a embarcação.

– E então rapaz? Como vai ser? – disse Marcelo, já sem mais vontade de esperar.

– E se a polícia descobrir que é mentira? – disse, por fim, João, com a única pergunta que lhe veio a cabeça para ocupar o tempo.

Marcelo deu uma risada de leve

– Bem, isso não é de se preocupar, só tínhamos nós como testemunhas, ninguém mais estava no barco, e eu vou acompanhar o caso, se houver algum imprevisto eu vou lidar da melhor forma possível. Não tem erro, é como eu disse: vai ser melhor para você também.

– E se eu disser que não? – disse, incerto.

– Não tem problema, claro! Eu entendo. Mas é evidente que eu não vou poder ajudar com as custas de advogado e esses outros gastos processuais para o seu caso. – caminhou pela sala, observando a janela que conectava com o lado de fora, e voltando, com um tom de ameaça dissimulada, continuou – Mas, como eu disse, a sua omissão como o marinheiro responsável também vai te colocar em maus lençóis, garoto.

João olhava também para o lado de fora. Sentia-se esgotado e cada vez mais sem opção. Ainda lembrava do corpo despedaçado no mar, agonizante.

Marcelo percebeu o estado de confusão de João e sacou um pedaço de papel e uma caneta do bolso.

– Aqui, eu vou escrever o valor que eu estou disposto a dar à sua família, e você olha para esse valor e pensa se vale a pena ou não. Mas você vai ter que responder agora, e se você disser que não, eu vou sair daqui e não falamos mais disso, ok?

João sentia como se todas as ações do patrão fossem encenadas, um grande teatro em que ele fazia parte inadvertidamente. Marcelo escreveu no papel e mostrou: era muito mais dinheiro do que havia conseguido juntar em toda a vida. Lembrou de sua mãe, que o esperava em casa, e para quem se dedicava tanto para retribuir todos os sacrifícios que fizera. Após o abandono do pai, indo para não se sabe onde, ela o havia sustentado e aos irmãos. Apesar das dificuldades, sempre esteve presente, com sua sabedoria e paciência para as travessuras dos três filhos. Ainda lembrava dela, soberana no sol escaldante da praia enquanto as crianças corriam por todo lado. Agora ele, o mais velho, já trabalhava e os outros dois começariam em breve. Olhou novamente o papel e respirou fundo.

– E você acha que lá fora vão me odiar muito? – perguntou, quase inocentemente.

– As pessoas esquecem garoto. Esquecem fácil, fácil – disse Marcelo, passando a mão no ombro de João e entendendo que se havia chegado a um acordo.

Olhando os repórteres e os curiosos ao sair, João sentia como se estivesse sonhando.

————————————-

Os jornais da pequena cidade estamparam em primeira página: “Marinheiro perde controle de lancha, mata duas pessoas e fere mais duas”. Na notícia, declarava que o dono da lancha estava presente na hora do acidente mas não daria nenhuma declaração. João não soubera disso, pois desde que saíra da delegacia, permitido aguardar em liberdade após o patrão pagar sua fiança, havia se enclausurado em casa. De toda forma, poucos vinham visitar, e sua mãe guardava-o destas interações, sabedora do efeito que teria no filho voltar a falar do que ocorreu. Naquela casa ninguém mais falava do assunto, nem ela nem os irmãos, mas mesmo o silêncio fazia pesar o ar, dando ao ambiente outrora alegre um permanente ar de melancolia.

Quando chegou em casa, ao sair da delegacia, ainda sem a fama repentina que teve logo após os depoimentos chegarem nas mãos da imprensa, sua mãe o esperava, olhos cheios de preocupação. Apenas abraçou-a e, entre os vacilos na voz das lágrimas que anunciavam chegada, adivinhando a avalanche que se avizinhava, só conseguiu dizer:

– Desculpe, mãe…

Anúncios
Imagem | Esse post foi publicado em Contos. Bookmark o link permanente.

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s