Mental

– Pode vir.

Aquele corredor parecia meio assustador. As paredes cor de creme arrastando-se ao longo pareciam se fechar conforme acompanhava a moça à sua frente. No silêncio, cortado pelo som dos passos, divisava a silhueta da mulher caminhando na direção da luz da janela que fechava o corredor.

– Aqui, à esquerda – disse, com a cabeça indicando a sala.

Deitada em uma cama, uma mulher aparentando seus 20 e poucos anos repousava. Uma fresta de luz corria por uma pequena janela no alto do quarto, vindo a jorrar no rodapé da parede oposta à que ela dormia. Via-a através de uma pequena janela interna, que fazia a comunicação do quarto com o corredor.

– Posso falar com ela? – perguntou, incerto.

Nesse momento, virou o olhar pois saiu de um dos quartos ao lado um homem com jaleco branco e cara barbeada. No momento em que voltou a buscar a moça que o trouxe até ali, já não havia ninguém. “Provavelmente deve ter ido embora”, pensou, e não teve tempo de pensar mais muita coisa pois o homem de jaleco iniciou a conversa.

– Olá, como está?

– Estou bem. – respondeu. Olhou preocupado através da janela – e ela?

– Está bem. Precisou de alguns sedativos. Sou Márcio, o médico aqui. – e, vendo o semblante ainda preocupado de seu interlocutor, incluiu – Os sedativos são para que ela não fique muito nervosa.

– Mas é necessário?

– Absolutamente.

Parou um tempo para olhar ao redor. Aquele corredor, todo aquele ambiente parecia carregado por uma névoa que não conseguia ver, pesando em cada passo. O quarto era bastante simples, com as paredes brancas, a cama mais parecia uma maca, com seus lençóis azuis claros dobrados cuidadosamente. Ela parecia dormir. Será que sonhava com algo?

– O internato nestes casos é uma necessidade absoluta. Não se pode deixar para o azar.

– Sim, sim – respondeu, com um tom vago. – Posso entrar ali?

– Veja, há questões que você precisa saber. Esse momento do tratamento… é complicado – disse o médico, após hesitar – e portanto sua presença ali, não sabemos o que pode causar.

– Eu gostaria de entrar, mesmo considerando os riscos.

O homem de jaleco parou por um tempo, parecendo pensar e considerar.

– Bem, não há problema, desde que você entenda. – disse, afinal.

Folheou uns papéis, como se verificasse as últimas informações, e seguiu bruscamente na direção da porta.

– Bem, entre então. Mas não deve demorar mais de 10 minutos.

– Você precisa entrar comigo? – perguntou

– Não há problema – o médico respondeu, entendendo a necessidade de dar certo espaço – mas estarei observando aqui em frente e caso algo saia do normal irei intervir – e, mediante o aceno positivo de seu interlocutor, completou – veja, quero apenas dizer novamente que o estágio ainda é muito delicado e provavelmente, com os remédios, ela sequer responderá à sua presença.

– Tudo bem – disse o homem, precipitando-se para dentro da sala e fechando a porta por trás de si.

Olhando para ela, dormindo e parecendo gélida, apesar do calor que fazia naquele dia, sequer parecia a mesma pessoa que conhecera. Um frio passou pela sua espinha no pensamento de que talvez nunca mais fosse.

Alguns meses se passaram desde que a vira. “Como mudou”, pensou. A família havia decidido afastá-la logo no início dos delírios. Eram amigos havia anos e estavam então em um início de romance. A coincidência das datas entre o despertar da esquizofrenia e o início de seu relacionamento não foi ignorado pela mãe dela, que pediu que se afastasse.

Estava em pé ao lado dela. Passou os dedos pelos seus cabelos, não sabia se podia tocá-la e logo após esse gesto esperou a repreensão do médico lá fora, mas ela não veio. Talvez tivesse dito algo, mesmo que o fizesse possivelmente não seria possível ouvir, imerso como estava em seus próprios pensamentos.

Lembrava quando começaram a namorar, e como havia demorado a demonstrar seus sentimentos. A cara dela após o primeiro beijo, naquela noite estrelada, meio sem saber o que dizer, e os segundos de tensão até o sorriso no rosto dela e um novo beijo.

Olhando-a naquela cama, seus lábios pareciam sem cor. Talvez fosse a luz. Mas ainda conseguia ver o rosto dela com aquele sorriso. Quando se deu conta, percebeu que sorria de volta à imagem em seus pensamentos. Voltando a si, olhou de volta para a porta como forma de saber quanto tempo ainda tinha. O médico olhava para outro lado, conversando com alguém que não conseguia ver, o que lhe deu tranquilidade – provavelmente poderia ficar ainda por algum tempo.

De fato, nos últimos tempos ela não era mais a mesma. Por vezes, achava que a perseguiam na rua ou tinha certeza de coisas que não tinham acontecido. Com o tempo foi ficando cada vez mais isolada. Apesar de não conseguir entender o motivo desta mudança em sua namorada, recusava-se a acreditar no discurso de que ele tivesse contribuído para o que ocorrera. Logo ele, que se sentia tão pequeno em uma vida ordinária sustentada com muito esforço, como poderia despertar em alguém algo assim, grandioso e destruidor?

Queria ajudar mas, certo de que uma briga entre mãe e namorado não faria bem a ela, decidiu se afastar. O pai adotara uma postura conciliatória, mas não chegara a enfrentar-se com a decisão da mãe. No entanto, continuavam conversando e foi ele quem avisou sobre a internação e dera a chance de vê-la, pois sabe-se lá o que poderia ocorrer.

– Olá Jô – disse, como para cortar aquele pesado silêncio que pairava, e passou a mão por seus cabelos novamente. Seu nome era Joana. Assim, de tão perto, ainda parecia a mesma.

Os dedos dela moveram lentamente em resposta à sua voz. Ele juntou sua mão à dela. Os olhos abriram lentamente, e ele esboçou um sorriso, na esperança de ver aquele sorriso que imaginara minutos atrás. Mas os olhos que o encaravam estavam opacos.

Os lábios pareciam dizer alguma coisa, que eram impossíveis de decifrar. Com o tempo a voz foi, baixinha, tomando forma, e ele colocou seus ouvidos próximos da boca dela para melhor ouvir.

– Me tira… daqui – disse ela, com dificuldade. – me deixa sair? – disse depois, emendando um sorriso amarelo, em um tom quase infantil.

Ele se assustou e se desvencilhou dela. Irritada, ela gritou “eu quero sair!” e, como acordando de um transe ele foi tentar voltar a pegar-lhe a mão mas era tarde, Márcio, o médico, empurrou-o levemente para o lado e começou a injetar algo na sua veia, enquanto ela ia ficando mais nervosa, e repetiu mais uma vez “me tira daqui!”. Um enfermeiro apareceu e forçou as mãos dela para imobilizá-las, pois cada vez mais agitava seus braços. “Como apareceram tão rápido?”, pensou. “São eles! São eles!”, ela gritava e seus olhos por vezes pareciam voltar a si, para no momento seguinte desaparecer de novo naqueles globos opacos que tanto aterrorizavam. Ele se afastou mais dois passos, sem saber definir o que estava vendo, o corpo do médico e do enfermeiro tapando-lhe a vista, e já era o último momento quando ela gritou o nome dele, foi possível ouvir claramente, e ele foi correndo para ver-lhe o rosto, ainda em uma esperança improvável, mas ao conseguir encontrar um espaço entre os dois só o que viu era a sua Jô novamente desacordada, em um sono profundo.

– Vamos. – disse Márcio, ao ver que ele continuava parado, olhando para a mulher dormindo.

Demorou um tempo até que ele, consternado, se movesse.

– É normal se sentir impactado por uma cena dessas – disse o médico, sério e tentando aplicar à sua fala um tom compreensivo, na porta do quarto, após os dois e o enfermeiro saírem, trancando a porta novamente. Parecia adivinhar o que se passava na cabeça do rapaz – eu te disse que ainda era um momento complicado. Vai ser um processo até conseguirmos reduzir a medicação.

– Mas ela chamou pelo meu nome. – disse, ainda parecendo perdido em seus pensamentos.

– Sim, existem momentos de crise e outros melhores, talvez a sua presença possa ter estimulado uma agitação nela. De toda forma, a Joana tem suas memórias, mas não consegue distinguir o real da imaginação, esse é o problema.

Ele não respondeu. Seu olhar parecia sem direção, perdendo-se no horizonte.

– Olha, minha sugestão é que você vá para casa, tire uma boa noite de sono. Você se lembra como ela estava antes de entrar aqui, certo? Você quer que esse tipo de coisa que aconteceu continue acontecendo?

Não houve resposta, então o médico continuou.

– Continue conversando com os pais dela e se quiser pode ligar para cá. Talvez seja uma boa ideia você deixar com a gente por enquanto, e voltar daqui há algum tempo, certo?

Márcio conversava e ia guiando ele na direção da saída. Ele deixava-se levar. Havia tudo sido muito rápido, e andando assim sentia-se como se fosse também um enfermo. E ela? Será que seu pedido de ajuda era real? Despediu-se dele e da atendente e saiu.

Sentado em uma lanchonete próxima, não conseguia decidir sobre o que fazer. Pensava no terror que sentiu quando se afastou dela e como não conseguiu mais voltar a segurar sua mão. O médico fora convincente em explicar que isso fazia parte de um delírio. Por outro lado, a Joana, a sua Jô, não simplesmente pediria socorro sem mais nem menos. E ela chamou seu nome. Por que faria isso se ela estivesse imaginando?

As imagens do ocorrido no quarto voltaram a se repetir em sua cabeça, como um filme rodando sem parar. Como ela está? Será que poderia ter feito algo diferente naquele momento?

Pensou em voltar. Imaginava-se voltando e conversando com o médico, que lhe daria o mesmo sermão de antes, “olha rapaz eu te entendo, eu realmente te entendo, mas não há o que fazer, é a maneira dela voltar a si”. “Entupir de remédios… deve ter outra solução”, ele diria, e o médico responderia “Não há, e você está ficando insistente, vá lá que você não precise de remédios também!”. A noite chegaria em breve. Fechou os olhos e pensou na sua última visão dela, deitada. Tentou gravar em sua memória. Suspirou e seguiu para o ponto de ônibus, de volta para casa.

Ele vivia ainda com os pais, em uma casa bastante simples. Uma sala pequena, ocupada pelo sofá e televisão, dividia os cômodos. Uma janela ali trazia a brisa para acalmar as noites quentes. Seu pai passou por ele, no trajeto entre o sofá e a cozinha, e deu-lhe boa tarde. Ele não respondeu imediatamente, fazendo após um tempo um aceno de cabeça. Seguiu para o quarto.

Deitado em sua cama, olhando distraidamente o teto, tentou organizar o pensamento. Não era do tipo impulsivo, e por sua personalidade muitas vezes retardava decisões importantes, mas não dessa vez. Entraria em contato com a família de Joana? Possivelmente o ouviriam, talvez retirassem ela dali. Mas o que diria? E o que havia para dizer? Repensava, repassando o ocorrido mais cedo em sua mente – seria esta mais uma ilusão das que ela tinha em suas crises?

Em um gesto brusco levantou-se e ligou o computador que ficava no seu quarto, começando a digitar. Precisava escrever de maneira contundente, pois caso contrário de nada adiantaria para que tomassem uma atitude. Enviaria um correio eletrônico contando sua visita e dizendo que Joana pedira por ajuda, explicava no texto que ela queria sair de onde estava internada e que estava sofrendo. Que tinha sido sorte ter ido visitá-la no momento em que acordara pois permanecia sedada a maior parte do tempo. E que ela havia o reconhecido. E dito seu nome. Escrevera tudo de uma só vez. Pronto, estava ali um desabafo para os pais de Joana, com o que precisavam saber, que poderia livrá-la do que parecia ser um cruel destino. Enquanto relia seu pai o chamou, era hora da janta.

Sentado na mesa, que ficava na cozinha pois seus pais não gostavam de televisão nas refeições, estava envolto em seus pensamentos. “Está tudo bem, querido?”, perguntou sua mãe, vendo que seu filho tinha um olhar perdido. Ele apenas sorriu, baixando a cabeça após o gesto e mantendo o olhar no seu prato, enquanto o comia.

O jantar terminou e após ajudar a retirar os pratos, voltou a seu quarto e releu o texto. Mas não enviou. “Melhor dormir e amanhã ajeito os pormenores”, pensou, guardando no fundo de si a dúvida sobre o que vira e o que significava. Salvou o texto no seu computador, apagou a luz, deitou em sua cama e fechou os olhos.

A imagem da Jô em um cinema veio a sua mente. Uma memória antiga. Seus lábios se aproximavam e era o primeiro beijo que tiveram. Fechou os olhos, saboreando longamente o momento, e quando os abriu novamente ela estava como a vira naquele dia, o encarando com aqueles olhos opacos. Assustado, afastou o corpo. “Me tira daqui!”, a voz veio de algum lugar desconhecido, ele esfregou os olhos e sentiu um empurrão, quando voltou a abrir era o enfermeiro, e a cena de horas atrás, ele recuou alguns passo e acordou. Hora de trabalhar.

O dia passou normalmente, seu pensamento fugindo da lembrança do sonho daquela noite e do que o esperava quando voltasse para casa. Mas logo estava em seu quarto, o computador ligado e o texto na tela. Ainda estavam vivos o olhar, os gritos que a deixassem sair… o médico falando veio em sua mente. E se ela na verdade quisesse continuar, apesar das crises? E se foi só mais um delírio? Mas e se ela estivesse mesmo sofrendo? Estava ali, um clique. Sentia que a decisão era tão grande que não conseguia vê-la de conjunto, olhava-a pelas partes, tateava. Talvez os pais de Joana já tivessem conversado com ela, e isso nada mudaria, ou quem sabe aquele momento inesperado pelo médico não tenha se repetido outras vezes. Ela sairia para onde?

Sem saber exatamente o motivo, como se algo estranho a ele movesse seu corpo, cancelou o envio da mensagem. “Desculpe Jô” pensou, e apagou o texto do seu computador. Retirou o fio do computador da tomada, apagou a luz, deitou-se na cama e fechou os olhos. Após o filme no cinema, andavam de mãos dadas pela calçada, o silêncio da noite ressaltava o assovio do vento, uma chuva fraca começou a cair, refrescando a noite. Ao sentir as primeiras gotas olharam juntos para o céu e, entreolhando-se, sorriam felizes.

Antunes, 2018.

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