Rotina educadora

O alarme toca, seis horas, tateio no escuro “só mais dez minutos”. Não sei o tempo corrido, o apito insistiu. Uma ducha rápida pra lavar o sono, não há tempo para o café, tomo quando chegar na escola. Nem mesmo o dia definiu-se ainda, incerto se nubla ou abre. Até o ponto de ônibus o caminho é ainda despertar, pessoas coçando os olhos, passos que sabem do próprio atraso, mas não conseguem mais velocidade, o trabalho aguarda. Crianças uniformizadas aparentam similar tensão, a escola aguarda. É realmente necessário nos levantarmos tão cedo? Qual corpo deve acordar antes de repousado? O ponto está cheio. Os ônibus se aproximam, pescoços e braços se esticam ansiosos pelo transporte.

“Bom dia” o motorista é o mesmo, responde minha saudação num gesto simples, ligeiro aceno com a cabeça, suas olheiras não deixam esconder as exigências que a noite anterior demandou. Com ele dirigindo não chego tarde. Quase todos no ponto sobem nessa linha, os bancos ainda vazios, gelados, pouco a pouco são ocupados, procuram assento solitário, economizam palavras. Os espaços são logo preenchidos, rostos conhecidos embarcam, companheiros de viagem. No trajeto alguns se distraem com a paisagem, olhares perdidos, outros, a maioria, empunham o celular e dedos já agitados desmentem o semblante sonolento. Eu os observo. O engarrafamento é sempre nessa junção, buzinas disparam e acompanham o apito dos guardas esforçados em fazer fluir os carros e ônibus amontoados, vencida essa barreira falta pouco. Sete horas.

A escola fica numa rua estreita, só um carro por vez, no pé do morro do Andaraí. Ainda está fechada. Na padaria a poucos passos vou atrás do café, empurrão para a jornada. “Hoje é só o cafezinho, sem o pão com manteiga”, e a sorridente balconista não demora. É uma casa de pintura branca e detalhes cinzas, emparedada entre construções parecidas, sem qualquer pista de que abriga uma escola. Da porta vê-se uma escada ascendente e sentado numa carteira logo após o último degrau está o inspetor, esbaforido, em suadouro, apelidado o Carcereiro. O primeiro aluno chegou, não é para minha aula. Independência do Brasil, Grandes Navegações, Escravidão, Revolução Russa, quem se anima com uma aula dessas logo de manhã? Aguardo na sala.

A primeira da turma chega, é a única dessa série e divide a sala com outros dois, de série e idade diferente. “Como foi o final de semana?”, não pôde ir na festinha com os amigos, a mãe, seguidora fervorosa de uma vertente pentecostal não permite que a menina saia. Chegam os outros dois. “Sim, podem dormir até a hora da nossa aula”. Preencho o quadro negro com os apontamentos e a menina copia automaticamente, “pode cair na prova sim”. Sento perto dela e tento levar a aula como uma conversa informal, aproximar os anos da Regência durante o Império do cotidiano dela é tarefa hercúlea. O que ela quer conhecer? O tédio é indisfarçável, mas desfeito quando o outro menino atira nela um pedaço de papel e pergunta sobre alguém. Isso a interessa. Segue uma cosquinha, deu o tempo, é hora da aula para os outros dois. “Claro, vá ao banheiro”. Ele chegou sem uniforme e o Carcereiro não iria liberar sua entrada, disse ser ele quem mandava, contou o menino que só entrou quando o proprietário da escola, também diretor, desautorizou o inspetor, esse era o motivo do atraso. A aula dois outros dois seguiu a mesma toada, para eles minha voz sem interrupção esquadrinhou a Crise de 1929. “Alguma dúvida?”, nenhuma. Nove horas.

Sentado em frente a mesa junto a porta da sala onde eu dera as primeiras aulas estava o diretor. Grisalho, olhos escondidos sob uma larga sobrancelha e a boca, miúda, não resistia as enormes bochechas como a de um buldogue, sorrir o faria levantar muito peso. Me cumprimenta mudo, sigo para a outra aula, essa turma fica numa sala subterrânea, sem janelas e com paredes de azulejo branco. Só um aluno me aguardava, deitado sobre os braços feitos de travesseiro. “Como você está, meu amigo?” é um pouco mais velho que os das primeiras turmas e de série mais avançada. Depois de se espreguiçar ele me entrega uma folha de papel. “E os outros?”, faltaram sem dar notícia. No papel ele fez o exercício que propus no encontro anterior: um diálogo entre um sujeitos de tempos distintos, um medievo e um iluminista. A criatividade das palavras chamou menos a atenção que o cuidado demonstrado em descrever os pontos de vista e apaziguar os sujeitos, “mas o que você pensa?”. O menino não gosta de opinar, evita conflitos e desagrados. Tornou-se esse o tema da aula, se colocar no mundo. Entre situações narradas e algumas risadas notamos que o relógio correu e era hora do recreio. Sugerir que se manifeste sobre suas convicções como uma prática de liberdade não combinava com a sala-masmorra onde estávamos. “Outro cafezinho e um pão…” com ovo, terminou a frase a mesma moça sorridente da padaria. Quisera levá-los a rua, conversar sob o céu agora claro e fazer disso aula, são História os desdobramentos que no tempo levam-nos, muitos de nós, a comportamentos passivos quando a existência exige posicionamento.

De volta na escola encontro com os outros professores, só revelam lamúrias. Esse aluno não quer nada, aquele é preguiçoso, são tão poucos. Para o diretor falta consideração com o investimento custoso dos pais. A mim sempre pareceu que os pais ignoram o que se passa nessa escola. Jamais fui questionado ou orientado quanto a uma vertente pedagógica, nenhum professor foi. Tomei o descaso como liberdade. Faltava apenas mais uma aula, onze horas.

É a turma dos mais novos. Essa sala tem janela, mas sempre fechada, muito barulho. São dois. As Capitanias Hereditárias foram conversadas como encenação. “Você é Dom Fulano, e você o Rei de Portugal”, eu sou o rei!, exclamou um dos meninos rindo do outro que retrucou dizendo preferir ser nobre, rei é muito chato. “Sim, tenho cinco pra ajudar o troco”, o carcereiro irrompeu pela sala para fazer o pagamento da minha diária. “Você acha que o rei lhe daria terras sem querer algo em troca?”. Viu como é melhor ser rei?, continuou o garoto, e o rei ainda fica com todas as garotas, concluiu triunfante. “Sim, eu já beijei uma garota”, respondi a pergunta feita entre risotas. Como era? É bom? Eu acho que nunca vou beijar alguém. Foi o que se seguiu, queriam conversar sobre garotas. Toca o telefone de um deles, passáramos dez minutos da aula, a mãe estava aflita com o filho que não chegou para o almoço. Turma liberada. Segui para o ponto de ônibus, estava só. Estiquei meu braço para o ônibus que vinha apressado. Boa tarde professor!, passou o garoto que não gostava de opinar, “Até amanhã”. Meio dia.

Joaquim Miguel, 2017.

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