Tortilla

– Surpresa!

Roberto entrou em sua casa e logo surpreendeu-se com a presença de seus amigos. Diego, Zé e Serginho tinham feito uma festa surpresa para ele. Infelizmente para eles, essa era uma péssima hora para festa. Enquanto os amigos entoavam um “parabéns para você” empolgado, ele foi sentar-se no sofá, sem entusiasmo. Seus olhos estavam vermelhos e um pouco molhados, mas demorou um tempo até que algum de seus amigos percebessem. Isto ocorreu quando já estavam ao redor dele no sofá, desejando muitos anos de vida. O canto foi murchando vertiginosamente, ao fim do que Zé falou:

– Que isso! Eu sei que gente canta mal mas não é pra tanto…

Roberto olhou-o com cara de poucos amigos, e Serginho deu uma cotovelada no amigo.

– Pára de fazer piada! Não tá vendo que aconteceu alguma coisa? Que houve Beto?

– É que eu fui na casa da Júlia e ela me deu um fora… – disse, olhando para baixo, desanimado.

– Nossa cara, que horrível… mas por que? – perguntou Diego

– Ela disse que queria algo mais sério e que eu não demonstrava ser assim…

– Que absurdo! Ela só pode estar louca, você é tão sério que chega a ser chato! – disse Zé e, depois de outra cotovelada de Serginho e um sonoro “Ai! No mesmo lugar!”, continuou – quer dizer, olha só pra você cara! Mora sozinho…

– tem um bom emprego… – continuou Serginho

– uma vida mansa… – lembrou Diego

– Mas não é isso que ela quer. – cortou Roberto e, olhando o horizonte como se visse um filme, começou a gesticular vagamente e dizer – ela virou pra mim e disse “sabe Roberto, a maioria das pessoas procura um relacionamento estável, mas eu simplesmente acho que isso não vai dar certo com a gente. Afinal, você tem muitos amigos” ·

Essa última parte ele disse com uma voz desnecessariamente fina e estridente, com ainda um leve toque de raiva. À sua frase seguiram-se uma série de ações e movimentos bruscos dos amigos, dos quais vale ressaltar um gemido de espanto escandalizado compartilhado pelos três. Muitos amigos, oras! Eram amigos desde sempre! Tal constatação fez com que “quem ela acha que é?”, “que desgraçada!” e outros pensamentos que são impublicáveis nesse conto passassem pelas mentes dos três.

– Ela disse isso assim, na lata? – disse Diego, e sentou-se ao lado de Roberto abraçando-o levemente, o suficiente para dar apoio mas não o suficiente para o que lhe pareceria um chamego amoroso.

– Poxa, essa eu não entendi! Ela terminou com você porque tem muitos amigos? – disse Serginho, pensativo, ainda ruminando a ideia.

Roberto olhou para os amigos, por um tempo hesitante sobre o que falar. Olhou a janela e viu que parecia que ia chover – ainda que isso não fizesse absolutamente nenhuma diferença na sua chateação. Gostava, no entanto, de entreter a mente para então voltar a pensar em um determinado assunto – acreditava que isso ajudava a clarear as coisas. Havia visto isso em algum programa de auto-ajuda… ou seria livro? Enfim, de qualquer forma aquilo não parecia ajudá-lo naquele momento, e tentou dizer da melhor forma possível para não chatear os amigos:

– Não foi bem isso… ela disse que, se a gente tivesse mais que um simples caso eu iria ter que dedicar mais tempo a ela e menos tempo a vocês. Iria ter que cancelar o futebol de domingo, o chopp da segunda, a boate da terça, o filme de quarta… sem contar na pizza de quinta e na sinuca de sexta!

– Ah não! A sinuca de sexta é sagrada! – irrompeu Diego, sentindo-se ofendido de ouvir tal coisa.

– Eu não consigo mais fazer outra coisa nas sextas! – completou Serginho

– Realmente, por mais importante que ela seja pra você, a sinuca de sexta é, acima de tudo, um ritual de celebração da amizade. – fechou Zé, em tom de quem professa uma doutrina científica.

– Mas o que é que eu vou fazer sem ela!? – disse Roberto e colocou as mãos no rosto, sentindo as lágrimas vindo.

Serginho sentou do outro lado do amigo e Zé abaixou-se perto dele. Não sabiam realmente como lidar com aquela situação – aliás, com situações em geral que envolviam sentimentos –, e perguntavam-se naquele momento qual seria a melhor forma de agir. Na dúvida, ficavam olhando para ele com um olhar vago. Entre um e outro pensamento, as ideias de contratar umas garotas de programa e de tentar distraí-lo com filmes de zumbis foram descartadas como de êxito improvável.

– Ô cara, num fica assim. É teu aniversário… – disse Serginho, compreensivo. Logo após falar essa frase, sentiu-se idiota pela falta de algo realmente útil para dizer.

– Tem que haver um jeito de melhorar a situação. – disse Diego, em parte falando consigo mesmo, mas mesmo assim olhando por cima do rosto cabisbaixo de Roberto para os outros dois.

Pode parecer bobagem, mas existe uma telepatia típica de amigos. Funciona assim: ao olharem-se, passa pela cabeça dos envolvidos a mesma coisa. Claro, isso não funciona com amigos platonicamente apaixonados por suas amigas gostosas ou para convencer seu amigo a emprestar o videogame. De toda forma, naquele momento mágico os três se entenderam e em uníssono foi ouvida a solução:

– Cachaça!

– Vamos beber até cair, assim você esquece ela! – disse Zé, empolgado.

– Não dá. – disse Roberto, levantando o rosto somente o suficiente para ver o amigo logo em sua frente.

– Ué, por que? – perguntou Serginho

A voz de Roberto engasgou um pouco. Pensaram os três que lá viria aquele choro de novo. No entanto, foi apenas um momento e Roberto retomou as rédeas de suas glândulas lacrimais. Ufa.

– Estourei meu cartão no bar. – disse, falando devagar para se controlar.

– Ué, quando? – perguntou Diego.

– Hoje, logo depois que saí da casa dela! – e, finalmente, mergulhou a cabeça nas mãos e começou a chorar.

– Poxa Roberto, você não pode se entregar! – disse Diego, tentando um abraço mais forte que chegava quase, mas não totalmente, ao chamego.

– Isso homem! Seja mais forte que ela! – disse Zé.

Serginho levantou-se e deu uma sacudida no ombro de Roberto, tentando chamar sua atenção. Aquela choradeira o estava matando…

– Vamos, levanta dai e vem comer o bolo, tenho certeza de que você vai gostar.

Roberto interrompeu o choro, ainda fungando, e pareceu considerar a ideia por um tempo. Surpreendia-o que tivessem comprado um bolo, quando geralmente se preocupavam mais com o estoque de cervejas… buscou pela sala com os olhos úmidos à procura do bolo de aniversário e, quando viu-o em cima da mesa, voltou a fazer uma cara chorosa.

– Nossa, o que foi agora? – perguntou Zé

– O bolo é azul. – disse Roberto, lacônico.

– Viu gente, eu sabia que ele iria gostar do amarelo! – disse Serginho, meio incerto do sentido que fazia sua frase, mas feliz por poder reivindicar estar certo na discussão que haviam tido mais cedo.

– Mas o que tem ele ser azul? – perguntou Zé, insistente.

– Era a nossa cor preferida… – e voltou a chorar. A esse ponto Diego já havia desistido da tática do abraço e havia se jogado no encosto do sofá, olhando para o teto e rezando para que um pedaço dele caísse em sua cabeça.

Serginho, ainda de pé, olhou para Zé. Respirou pesada e lentamente, e sabia que as possibilidades de resolução estavam se esgotando:

– É galera, ou a gente faz alguma coisa, ou esse vai ser o pior aniversário da vida dele… – disse, desesperançoso.

Nesse momento Diego, desistindo de tentar criar poderes telecinéticos para influenciar o teto, levantou-se e em um grito exclamou:

– Tive uma ideia!

– Você? – perguntaram os outros dois, em uníssono.

Ignorando o óbvio desdém demonstrado pelos amigos, ele continuou:

– Eu sei o que a gente pode fazer pra ele se animar!

E contou então a sua ideia, que os outros pareceram gostar. Até mesmo Roberto, meio por convicção, meio por desespero, se animou e topou. Sendo assim, começaram os preparativos.

  . . . .

– Só tenho uma pergunta a fazer: precisávamos mesmo dessa roupa?

Serginho parecia contrariado. A ideia de fazer uma serenata fora boa e todos aceitaram, mas… vestido de mexicano? Além do que, no calor do Rio de Janeiro, aquele poncho o fazia suar em zonas que incomodavam demasiadamente.

– Por que de mexicano? – continuou

– É mais romântico assim, você nunca viu aqueles filmes do cinema? – justificou Diego, dono da ideia.

Estavam agora em frente à casa de Júlia. Serginho pensou que ainda bem que era uma casa, o que evitaria o inconveniente de ser alvo de botinadas de todo um prédio. “Da próxima vez em que ele ficar mal, vou fazer como qualquer amigo normal e alcoolizá-lo. Mexicano, francamente…” pensou, mal humorado.

A casa era bastante comum, como milhares de outras em Vila Isabel. Suas paredes eram azuis mas estavam já envelhecidas, como é normal entre as casas do local. Dentro dela, uma família também comum fazia seu jantar, assim como várias outras pelo bairro. Naquela mesma noite, em algum lugar da Escócia, um filósofo escrevera sobre a inevitável capacidade humana de transformar atos e práticas comuns em atividades especiais e únicas pelo desenvolvimento de uma experimentação de prazer ao estabelecer laços afetivos com os indivíduos que compartilham daquele mesmo evento. Escrevia motivado principalmente pelo fato de que nunca era convidado para as festinhas da universidade. A ideia poderia também ter ocorrido àqueles jovens vestidos de mexicano em Vila Isabel, mas isso não aconteceu. Após terminado seu texto de esboço, nosso filósofo escocês achou que aquilo não era digno de publicação e jogou na lixeira seu manuscrito. Na lixeira era também onde Roberto gostaria de jogar seu amigo Diego, por ter convencido ele desta ideia que, agora que ele estava lá, parecia completamente louca.

– Que ideia… – falou para si mesmo Roberto, olhando vagamente para a casa.

– E então, vamos cantar o que? – disse Zé, animado e sem parecer se incomodar com os olhares estranhos destinados a ele pelos transeuntes.

– Pois é Robertão, qual vai ser? – disse Diego. Nunca o chamava de “Robertão”, mas pensou que isso poderia animar um pouco o amigo.

Roberto deixou o ar da noite entrar por seus pulmões. De toda forma, um ato romântico e inconsequente lhe parecia ainda uma ideia melhor do que não fazer nada. Ajudou-o a topar também a vontade de ver Serginho vestido de mexicano contra a vontade. Quando apresentaram as roupas isso tinha lhe valido um leve sorriso após muito tempo sem rir. Além disso, sentia-se satisfeito de ter os três por perto.

– Bom, a nossa música sempre foi Your Song, do Elton John, por causa de Moulin Rouge… – respondeu, decidindo-se a levar a ideia até o final.

– Que original… – disse Zé, recebendo sem dar atenção um olhar assassino de Roberto após sua frase.

– Xi, eu não sei tocar essa no violão não… – disse Diego. Havia trazido consigo o violão que roubara de seu irmão menor. Havia dito a todos, na empolgação do momento, que poderia tocar a música da serenata, mas naquele exato momento estava inclinado grandemente a repensar sua avaliação acerca de suas capacidades musicais.

– Pô, num sabe tocar? Que mancada… e o que você SABE tocar? – perguntou Serginho

– Bom, eu sei o início de Come As You Are do Nirvana, serve? – claro, era uma pergunta idiota, mas ao menos serviria para ganhar tempo até pensar o que fazer.

– Claro que não! – disse Roberto, exaltado. Então se acalmou e continuou, desanimado – Aí que ela acaba tudo mesmo…

Diego pensou, pensou, e tentou uma proposta:

– Eu sei tocar La Barca, daquele cara espanhol

– Ivan Lins? – arriscou Zé.

– E Ivan Lins é espanhol por acaso? – perguntou Diego.

– Sei lá pô. – respondeu o rapaz.

– Ivan Lins não era aquele cara que canta “Sozinho”? – arriscou Serginho.

– Não, esse é o Caetano Veloso. – respondeu Diego, pacientemente.

– Então quem é esse cara? – perguntou Zé, novamente

– Sei lá… bom, que música do Ivan Lins vamos tocar? – perguntou Serginho.

– Luis Miguel! – gritou Diego.

– Isso lá é nome de música que se apresente? Sempre achei que o Ivan Lins era gay… – estranhou Serginho.

– Não, Luis Miguel é o cara que canta La Barca… – respondeu Diego, com toda a calma que podia reunir, estando em um poncho numa noite quente do Rio de Janeiro, em frente a uma casa de uma pessoa que provavelmente (e isso ele já pensava a essa hora) os expulsaria tão logo pudesse ouvi-los…

– E o Ivan Lins? – insistiu Serginho.

– Esquece o Ivan Lins! – interviu finalmente Roberto, impaciente – Que música é essa?

– Aquela assim “Hasta que tu decidaaas regresaaar” – cantou Diego, de forma tão desafinada que Roberto pôde jurar que alguns pássaros haviam voado para longe por esse motivo.

– Música de corn… – começou Zé mas, na memória do cotovelo de Serginho, que estava logo ao seu lado, mudou rapidamente o rumo da frase – … de uma novela! Não é de uma novela?

– Sei lá, ainda tô tentando entender a parte do Ivan Lins… – disse Serginho, cabisbaixo e demonstrando que provavelmente não teria ânimo para dar-lhe uma cotovelada, afinal.

“Isso nunca vai dar certo”, foi a exata frase que passou pela mente de Roberto naquele momento. No entanto o que disse foi:

– Putz. Tá, a música serve, mas eu não sei cantar em espanhol.

– Ah, enrola, ela nem vai perceber… – disse Diego.

– Bom, ok! Vamos lá… – disse Roberto.

Os quatro então se viraram para a casa, que havia até então ficado esquecida no meio da discussão, somente para dar de cara com a Júlia os encarando na porta de casa.

– Ah! – gritou Serginho, sem se conter.

– Oi, Roberto. Eu posso perguntar o que você faz vestido de mexicano tentando tocar música em espanhol na porta da minha casa? Dá pra ouvir vocês lá do meu quarto. – disse a Júlia, que não parecia muito empolgada com a surpresa.

– Oi Júlia.. erhm… – disse Roberto, e começou a gaguejar.

Que silêncio se fez então!

– Júlia, ele veio dizer que gosta mesmo de você, não é, Roberto? – disse Serginho, cortando o vazio constrangedor que pairava no ar.

– É… – respondeu Roberto

– E dizer que você é mais importante do que tudo pra ele, não é? – emendou Zé.

– Uhum… – disse ainda Roberto, olhando para a Júlia e depois para o chão, e então novamente para a Júlia. Trocava a visão em intervalos regulares.

– E dizer que por você ele até larga a sinuquinha de toda sexta-feira… – finalizou Diego, para os olhares assustados de Serginho e Zé – o que? – perguntou ele se virando para os outros dois, ingenuamente.

Roberto então pareceu pegar o fio da meada e continuou:

– Isso aí… Júlia, eu estou preparado pra um relacionamento sério. Eu pensei, e eu não quero mais esperar, meu aniversário não vai ser completo sem você.

Júlia pareceu considerar por um momento o que ele estava dizendo. Apesar da insegurança, acreditava que era necessário perceber que todo aquele esforço significava algo…

– Mas e os seus amigos? – disse então, ao fim de algum tempo.

– A gente dá um jeito… – apressou-se Serginho em dizer.

– É, vamos dar espaço pra ele… – completou Diego

– A gente nem gosta tanto dele assim! – terminou Zé

– Viu? Vamos tentar, dessa vez eu juro que vou fazer as coisas certas. – disse Roberto, já um pouco tonto pela pressão e pelo calor insuportável que sentia dentro daquela roupa.

Beijaram-se. E beijaram-se de novo. Ao cabo de mais um beijo perceberam os três amigos olhando para a cena, com ar de satisfação. No entanto, após um olhar reprovador do casal, estes resolveram disfarçar, olhando para o horizonte ou assoviando.

– Bem, acho que a minha ideia funcionou afinal… – disse Diego, satisfeito consigo mesmo

– O que? Você está louco, isso foi sorte! – disse Serginho. Afinal, como sabiam os amigos, ele não gostava de perder nem em cara ou coroa.

– Ah claro, muito melhor era o plano de comprar um bolo amarelo! – respondeu Diego, irônico

– Melhor do que isso! E essa roupa, meu deus!

Enquanto os dois amigos discutiam, Júlia e Roberto já tinham entrado e fechado a porta da casa de Júlia

– E lá se foram… – disse Zé, pensativo. – sabe, isso me lembrou a Carminha. Faz tanto tempo que a gente não se vê, a gente tava indo tão bem…

Diego pousou nesse momento a mão no ombro de Serginho, que retribuiu-lhe com um olhar cúmplice. E lá iam eles de novo…

Antunes, 2012.

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