Imortal

Um frêmito ao ouvido treme
todo corpo. Responde num sibilo
a boca entreaberta. Encarnada
a pele, umedecida ao toque dos dedos
sem rumo ou pressa. Meus olhos
enternecidos confessam o gozo.

Instante suspenso:

Sequer a morte é temida.

Joaquim Miguel, setembro de 2016.

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Fugido na praça

A praça é outra.
Cá estou no instante usual,
fugido da fadigosa labuta,
escrevo sobre o mesmo caderno.
Me entrego ao constante banco e vivo
róseo crepúsculo. Aqui persiste
certo brilho encantado dos olhos.
Seguem carros apressados, farfalham folhas
à carícia do vento de inverno. Nos rostos
semblantes descansados da marcha cotidiana.
O ponteiro impróprio rememora o habitual
tempo em que a fuga finda. Hoje
não sei por que
a praça é outra.

Joaquim Miguel, agosto de 2016.

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Correnteza

Uma pedra sobre um rio
não o faz deixar de correr
mesmo golpeando as águas
ele continua em seu rumo

Em todas as desgraças que tive
sinto-me comovido pela imagem
de que o rio em minha frente
continuará correndo no dia seguinte

“Não é injusto”, diz-me
o senhor sentado à sombra
“que a vida se ofereça
em uma tão rude metáfora?”

As árvores que lhe abrigam
cantam a vida por suas folhas
E tanto uma quanto a outra são
Apesar de nós e da rudeza

Chegará um dia em que
afundando nas suas águas
tornando-me com ele um só
mudando e permanecendo

Infinitamente
infalivelmente
e para nosso espanto
o rio seguirá

Antunes, 2016.

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Certa manhã

Lembrou novamente, olhos apertados, buscando opor uma de suas mãos ao raio de sol de janeiro que escapava pelo pequeno espaço deixado entre as duas metades da cortina e mirava insistente seu rosto; fez sombra.

Não era a primeira vez que deixara entreaberto o tecido cujo propósito fundamental é justamente protegê-lo do cutuque morno do sol das oito horas. Sustentou seu braço em riste o quanto pode, mas quando este cedeu ao cansaço imposto pelo próprio peso encontrou seu substituto no travesseiro que amparava sua cabeça e agora o protegia do inconveniente despertador.

A despeito do inevitável persistiu o quanto pode nessa espécie de limbo entre o dormindo e o acordado. Instigado pelos dois extremos, a vontade e a necessidade, hesitou até que seu travesseiro, de protetor, esquentado pelo constante raio do sol, transformou-se na pesada porta de um forno no qual assava. Esbaforido, ergueu-se de supetão empurrando para longe o travesseiro que o sufocava. Sentado na cama resistia à claridade que incendiara seu quarto. Não tardou e o som estridente do alarme destruiu o que restava do ímpeto que o mantinha naquela posição; despertara.

***

Esforçou-se para lembrar as quimeras da noite pondo-se de pé e caminhando em direção ao banheiro. Sentou no vaso e lá permaneceu algum tempo, mas nada lhe ocorreu. Não preservou aquela última imagem que em geral nos permite, por um instante, recordarmos nossos sonhos. São nossas criações arredias. Não querem conosco mais do que uma noite e nos fogem ao primeiro sinal de que retomamos o controle de nossa cabeça – livres. Há só uma armadilha para preservá-los: o delicado despertar. Nesses casos, não notam de imediato nossa acesa consciência e sua fuga se dá como a de um ladrão descuidado que deixa rastros. Podemos segui-los e reconstruir seus apressados passos até que sua trilha se perde no embaraçado labirinto dos nossos pensamentos. Deu a descarga.

Obedecendo outro despertador, dessa vez o borbulhar que sentia na sua barriga, foi até a cozinha. Lá, seu trajeto é eficaz: adentrado o pequeno retângulo, à esquerda, ao passar, apertou o botão que liga a já preparada cafeteira elétrica que repousava sobre uma bancada, a máquina sabe o que fazer a partir daí; à bancada seguiu um fogão pequeno; ao lado deste está a geladeira de onde retirou um pacote com pães, a mantegueira e um pote que fez anteontem de marmita e guardava seu almoço de logo mais. Virou-se em direção à porta de forma que, agora à esquerda, estava a mesa – já posta com toalha, um prato, uma faca e uma caneca – diante da qual faz suas refeições e ao lado dela a pia apoiada sobre um armário onde guarda suas panelas. Ao terminar o café-da-manhã, prosseguiu em direção ao quarto: deixou a louça suja na pia e, de passagem, desligou a cafeteira. Uma esteira automática é o melhor piso para o chão da cozinha.

***

O suor lhe escorria pela testa a ponto de pingar. O mesmo suor que umedecia suas pernas e transformava os simples gestos necessários para vestir-se na calça jeans em um exercício de força e paciência. Ao abotoar a camisa do uniforme – uma blusa branca que trazia no peito o símbolo da empresa para qual trabalha – sentiu-a grudar nas costas. Acossado, resolveu abrir a janela não só para os raios do sol que o despertaram, mas também para a brisa que, tinha esperança, o traria um tanto de conforto. Em um só movimento, cada braço empurrou uma banda da janela, seu quarto foi aberto para o que vinha de fora. De olhos fechados viveu o que lhe pareceram minutos. O contato do vento fresco com seu rosto aliviou o incômodo que sentia e um ligeiro sorriso desenhou-se no canto da sua boca.

Essa breve experiência de alivio encheu-o de furor e quis ver o que seus braços convidaram para dentro de casa. Estampava infinito cinza. A vista que sua janela oferece é a empena cega do edifício ao lado. A tinta que já foi branca, açoitada pela sujeira, acinzentou-se. O impacto dessa parede sem vida foi acordar seus sentidos, até então seletivos, para o que ainda não havia percebido. Do vale entre seu prédio e o ao lado – quando esticava o corpo para fora da janela, conseguia ver a rua -, em volume crescente, chegava com violência aos seus ouvidos uma ruidosa e estridente combinação de sons: buzinas, apitos e gritos indecifráveis. O mundo dava-lhe bom dia!

***

Com os olhos bruscamente cerrados, protegendo-se da esganiçada manhã, recuou dentro do quarto. Conferindo no pulso os ponteiros que o chicoteavam calçou-se apressado e agarrou sua carteira no caminho para porta que ultrapassou ventando e retumbou ao bater.

Em ligeiros passos no vale entre seu prédio e o vizinho ergueu os olhos ao azul cortante do céu e notou sua janela engolindo a asfixiante luz da estação. Ininterrupta a passada em direção ao mistifório destino levou veloz sua mão a testa; esqueceu a marmita outra vez.

Joaquim Miguel, 2015.

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Profanação 2 – Portal do Inferno

“Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança…”. A Divina Comédia, Canto 3.

A Estrela da Manhã

 

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Filme produzido pelo Cineclube Estrela da Manhã. Embarquem no passeio com o Caronte.

Joaquim Miguel, 2016.

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Noturno numa praça

A experiência da poesia é intensa
que não dá repouso, uma vez
incendiado por ela, brasa eterna
revela segredos do mundo.

O banco da praça e as flores
no jardim dançando à brisa
já não são mais só
banco, jardim ou brisa.

Corporificam misteriosamente o tempo
gigante, nos envolve e retém
da gente sua substância essencial.
Mas não se iluda! Não se iluda!

Não é o balanço colorido das flores
ou os beijos dos apaixonados
que contam a História desse instante
singular também de miséria e solidão.

Vê?

Esse jornal datado que distrai
meus olhos quando descanso, atente!
Será em breve morno abrigo
em casa habitada por tantos.

Daí a dor do poeta, que canta
_______________________a rosa
erguida bela, encarnada lhe suspende
sem jamais esqueçe-lo do caule-pena
em punho firme a sangrá-lo a mão.

Joaquim Miguel, 2016.

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Dezoito de abril

Surgiu a manhã, impiedosa
em raios fúlgidos acossa
nesse outono sufocante qual
_______________________verão
Rotina árida dos filhos deste solo
o trabalho, impávido colosso
exaure o corpo dormente
sob insistente lume pálido
da nova muito martelada:
Teu futuro espelha essa grandeza!
Hoje, enquanto a censura é tácita
brado retumbante: não há glória no passado!,
________________________ontem
testemunhamos golpe de Estado.

Urge superar usança iluminada
ao sol, e da luz do céu profundo
buscar refúgio. À sombra
germinar lindos campos com flores
de encarnado furioso. As hoje enraizadas
desbotam, despetaladas, secam ao fulgor,
não mais alimentam sonho intenso
na terra desolada pelos que vieram
_________________________à luz
eternamente em berço esplêndido.

Joaquim Miguel, 18 de abril de 2016.

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Ao dormir

Olhos encerrados em si
como diamante escondido
um mundo se abriga ali
presença sem nenhum ruído

Tudo aqui fora confuso
buzinas, gente em profusão
descansa que hoje é sem uso
não tem relógio nem patrão

No sono parece que sente
reencontro com alegria
longe da vida enfadonha

E teu sorriso inocente,
alheio aos fatos do dia,
desdenhando de quem não sonha…

T. Amaro, 2016.


Abrindo espaço mais uma vez aos nossos amigos,  um poema de T. Amaro!

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Reencarnação

Vejo bela mulher caminhando e acompanho
passo a passo, recrio toda sua História.
Nela me inscrevo harmônico ao seu lado
rememorando maravilhas do amor
________________________da vida inteira.

Folheio livro especial e acompanho
palavra a palavra, recrio toda sua Estória.
Agora escrita por mim, sempre atento
aos mistérios revelados pelo mestre
________________________da vida inteira.

Converso com bom amigo e acompanho
papo a papo, recrio toda sua História
no porvir asseguro a imortalidade
desse instante síntese da amizade
________________________da vida inteira.

Trabalho, trabalho, trabalho.

*

Liberto-me do mundo ao imaginá-lo
para mim. A realidade é diversa
_______________________e trabalho.

Joaquim Miguel, 2016.

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Respeitosa

A fumaça cinzenta
dissipa aos poucos
revela olhos puídos, loucos
de um desejo que lhe rebenta

As pedras de gelo
em cores do rubro vestido
à margem do seio o tecido
mostrando ao ocultar com zelo

A guitarra desafinada
toca uma canção antiga
evoca uma lembrança amiga
e um sorriso acompanha a balada

Logo a música distorce
ela sente o toque em si
roçar de dedos na pele
rastejando sobre seu braço

Agita-se o bar e ele
cortês, oferece mais
uma dose de bebida e ela
toma para melhorar a coragem

Dançam então, a cena
entremeada de bêbados
logo fora outro
este partira sem adeus

A balada antiga não tocara?
No meio das idas ao quarto
ao longo do tempo à meia luz
E não dançava ainda há pouco?

Afogando sem mágoa
é um glitter o que reluz?
ao longo do tempo à meia luz
É caminho de água…

Antunes, 2016.

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