No silêncio

Chegas pela porta
bolsa caindo do ombro
olhar meio cansado
do dia de correrias

Admiro tua força
que mostras sempre
embalada no meio
de risos alegres

Amo-te, leito terno
onde deságua o rio
dos anseios correntes
que fluem em mim

Penso tudo isso
vejo-te e não falo
somem as palavras
por que emudeço?

Queria eu ser capaz
de belas declarações
que pudessem mostrar
o que guardo em mim

Que fossem conforto
nos dias agitados
e que fossem alento
para tuas tristezas

Estou eu perdido
em meus pensamentos
quando tu me chamas
já impaciente

“O controle!”
Sumiu. Onde está?
Procuro contigo
no sofá da sala

Sentamos e ajeitas
a cabeça em meu ombro
uma brisa pela janela.
Mais uma noite normal

Antunes, 2017.

Anúncios
Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Instante

Ao peito assombrado surge gigante
a noite. Fantasmas desiludem
esperança acanhada feita aurora.
Agora descrença à magnífica sombra
protetora da pungente verdade: amor
é instante suspenso. Sol de mechas douradas
impossíveis, desvanece ao toque dos dedos
carinhosos, insistentes em acaricia-los.
Escorrego na infinita escuridão
desejoso de luz ia condenado
à nova quimera disfarçada.

Joaquim Miguel, 2016.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Realista

Viver, padecer
sonhar no intervalo
ei-lo, nosso futuro está ali
e o céu está a quilômetros…

Antunes, 2017.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Preguiça

Notei a janela, tantas vezes caminho livre para meus pensamentos, de jeito diferente. Precisamente em frente a ela, seu desenho emoldurava uma pintura viva, iluminando a parede esverdeada do quarto sonolento. As folhas da mangueira sacodiam-se ao sabor da brisa e fizeram desse movimento um convite para que apoiasse meus cotovelos no parapeito e mergulhasse.

De lá experimentei lenta e prazerosamente a preguiça que preenchia tudo. A tarde ia alta nesse sábado frio do outono no Rio de Janeiro. À minha esquerda a ruela da vila, feita ainda de paralelepípedos, era passagem livre para o assovio do vento. Vozes se esticavam distantes num ressoo cansado pelos edifícios estampados à direita, as pessoas se chamavam de longe, davam às goelas a missão impossível ao restante do corpo cumprir. Tudo harmonizado pelo inconstante farfalho das copas das árvores.

Lá na vila a lombeira era tamanha, absorvia, fazia sua própria forma, mesmo as alterações na imagem original do quadro. Quando um rapaz saiu de uma das casas a porta emitiu um ruído arranhado, agudíssimo, que acompanhou todo seu curso. Lamentava lhe obrigarem a se mover. O próprio rapaz trajava um moletom esgarçado, pontilhado de inúmeras lavagens e uma bermuda tão displicentemente escolhida, como se protestasse pela inevitável saída. Um cão, esticado ao chão da laje, farejou o movimento do seu amigo e questionou sua ausência em eloquentes e imóveis latidos. Na calha logo acima, invadida por folhas secas, um gato encolhido assistia ao acontecimento indiferente até esticar vagarosamente uma de suas patas, depois, desapressado, a outra, bocejar e começar seu banho.

Atrás de mim ecoou “Vamos?” e retornei pela janela-moldura absorto. Voltei ao quarto, nossos olhos se encontraram “Poderia passar a tarde inteira enroscada contigo nesse cobertor”. Era nosso trágico destino incorporar-nos ao tecido moroso da rua, nevoeiro sutil e frio, invencível por hoje.

Joaquim Miguel, 2017.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Uma tarde em SP

Sentada ela vê
as cores reluzirem
naquela tarde fria
em são paulo

“Não garota,
sai daqui, não é
seu lugar”, diz um
vertido sobre seu corpo

Ela olha-o, reluz
sua face gotejando
barbas sujas misturando-se
com a fuligem

“Não é seu lugar”, repete
aumenta o brilho das cores
o casaco cinzento protege
o velho do frio

um homem corre pela rua
quase tromba com ela
não baixa os olhos para vê-la
nem ela o vê

perdida em pensamentos
opacos e diversos
sente-se finalmente bem
não sai dali.

muita gente junta, ela encosta
a cabeça em um banco, um casal
bastante magro carrega um colchão
com um caixote de madeira em cima

outro passa com seu carrinho
e com seu fiel cachorro
caminha molemente
“na outra calçada eles têm pressa”

ele cumprimenta o velho de barba
enquanto se cobre com cobertor
para aplacar o frio
da tarde em são paulo

a rua é suja, tremula do outro lado
uma bandeira velha do brasil
em algum prédio público. Já ali
fede a mijo

Estampido e neblina se espalha
é a polícia, dizem, e o ar acaba
respirar é insuportável, ela levanta
tremula para andar, tal qual a bandeira

outra bomba, mais gás, e ela corre
“seu lugar não é aqui”, diz o velho
enquanto corre por ela. Ou será outro?
Para onde corre?

A confusão não lhe deixa pensar
na terceira explosão sem destino
na terceira explosão correm,
indesejáveis, espalham-se

sozinha, não sabe onde ir
passa o homem com o carrinho
e com seu cachorro. Ela o segue.
Há de haver outro eldorado.

Antunes, 2017.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Experimentos #1

Um som, uma viagem, uma coisa boba, um experimento, de Talopes.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Flores

É claro meu amigo
que as rosas são importantes
e tudo que é bonito na vida
e os amores arrebatadores

Mas é que vivemos em tempos
de sentimentos muito extremos
E a beleza das folhas ao vento
já pouco nos pode dialogar

Não lhe desejo menosprezo
mas após bucólicos versos
como ver homens dormindo
nas calçadas de frio chão?

Trabalhadores sem emprego
pessoas sem ter o que comer
nossos direitos subtraídos
e a desesperança no futuro

A poesia pulsa e é urgente
nos tempos que vivemos hoje
mas não podemos fazê-la
na meia luz de nosso quarto

Nesses tempos tão desastrados
talvez o poema corriqueiro
precise ousar e se encarnar
da maior das grandiosidades

Meu amigo, as ruas estão aqui
entraram quebrando as janelas
vamos ocupá-la em nossos versos
fazer um mundo que seja, de fato,
_______________________flores

Antunes, 2017.

Editado em 31/07

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Sobrevida

Caminho pelo chão distraído
por vezes tropeço e caio
noutras detém-me uma flor.
Alterno assim sorriso e dor.

Ao papel não escapa o destino
preenchido em tinta, sangue e amor.
Leia-me nesses versos desarmado.
Vida é árdua, exige fantasia.

Quem sou? Apareço cantando
pureza perseguida e paixão
esquecida no sem tempo dia-a-dia,
vislumbrada, trouxe-mouxe, exaurida.

Sem jamais trair essência,
eterna casa de esperança, vaga
insistente. Aos olhos se revela
colorida contra desencanto cinza.

Joaquim Miguel, 2017.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Recanto

Essa casa na ladeira
é mesmo encantada.
Mal pus o feijão no fogo,
cheirinho nem se espalhara,
quando notei na janela
imóvel no ar, atento beija-flor.
Breve encontro sucedeu,
seu olhar com o meu, então se foi,
boca sedenta de doce, atinou a minha
já salivante. A panela no fogão,
nesse instante fumegara.

Joaquim Miguel, 2017.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

O ocaso dos poderosos

O rei se cerca da corte,
ignora o murmurinho das ruas
como informes desimportantes
que recebe em seu castelo.

Perdido em suas pequenas intrigas,
preocupado com seu vinho francês,
não vê o arraste a se consumar,
a pólvora a explodir em sua barba.

Quando sente o cheiro da plebe
desespera-se, ordena execuções,
imprime decretos sem fim,
acusa conspirações pelas esquinas.

Não entende a onda que cresce
e invade por todos os lados
daqueles que trazem a conta
por tantos anos de exploração.

Essa onda que cobrirá tudo
com sua força estrondosa,
inundará o povoado e de onde
não mais sobrarão reis

Antunes, 2017.

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário