Lições de Brasília

Obrigado Temer por me ajudar
a conhecer todos os benefícios
hidratantes do leite de magnésia
e respiratórios do vinagre!

Antunes, 2017.

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Conversa de Bar

Aquela mochila incomodava Carlos. Já bastava que tivesse que trabalhar o dia todo, ainda sair com as costas doendo de levar essa mochila. Era supervisor de telemarketing já faziam 4 anos, longos anos em que havia perdido uma parte considerável de seus 25 anos de vida. Cruzou as ruas da Av. Presidente Vargas e logo pegou o 383, rumo a Realengo. Teve a sorte de encontrar uma senhora que ofereceu-se para segurar sua mochila, no que respondeu prontamente a entregando. “Hoje está especialmente insuportável” disse a senhora, ao que Carlos respondeu com um sorriso frio, ciente de que aquilo não era verdade. Se havia uma coisa com que se podia contar todo dia era que o 383 estaria lotado. Fazia parte, pensava, da etiqueta dizer que naquele dia estava especialmente cheio, talvez tentando se convencer que aquele inferno não se repetiria eternamente. De qualquer forma, se dizia isso com uma voz de revolta contida, quase casual.

Estava indo encontrar Gabriel, amigo que morava perto de sua casa. Nos últimos dias estava particularmente mal humorado, pois Alice, até então sua namorada, havia o largado para ficar com um cara da zona sul. Devia ser rico, como culpá-la de querer sair dessa porcaria de vida. Olhou para a UERJ distraído, e de volta às pessoas no ônibus lotado. Pareciam mortos-vivos, o que ele tornaria-se certamente também em questão de tempo. Não gostava tanto dela, mas sentia-se preso naquela terrível rotina desde o término, ideia que o enojava.

Desceu no ponto anterior ao de sua casa e lá estava Gabriel. Tinha também 25 anos e um corpo atlético, além de um cabelo curto e negro armado com algum tipo de creme que Carlos nunca teve a curiosidade de perguntar. Se conheciam desde o ensino médio, o que era bastante coisa para o tempo médio em que ele se propunha a ter amigos. Gabriel trabalhava como vendedor em uma loja de livros. Cumprimentaram-se e começaram a caminhar a esmo, a procura de um bar.

– Carlinhos, você não sabe o que aconteceu: estava lá no estoque da loja e tive uma ideia incrível para um livro! Pode também virar um filme, sobre dois policiais que vão atrás de um psicopata … – nesse momento, Carlos parou de ouvir. Era sempre assim, Gabriel vinha com alguma ideia maluca e irrealizável à espera de sua grande chance. Geralmente recebia apoio do amigo, mas naquele dia Carlos não conseguia sequer encará-lo. Via seu amigo e, por mais que buscasse negar isso, sentia repulsa. Virou a cara procurando um bar nas redondezas, e assim que achou um com uma cara amigável seguiu, sem esperar pelo amigo, na esperança de cortar o assunto. “Hei!” gritou-lhe Gabriel, botando-se a correr atrás dele “você está ouvindo alguma coisa do que eu estou falando?”

– Sim, claro. – respondeu secamente.

Percebeu que o amigo ficara magoado, pois sem responder sentou na cadeira do bar e ficou olhando para baixo. Carlos percebeu que havia agido de forma grosseira, mas não sentia-se disposto a todo o processo de desculpas. Apenas sentou em frente a ele, sem mais palavras.

– Porra cara, essa é uma boa ideia… – disse Gabriel, com voz de resmungar.

Carlos apenas acenou com a cabeça, com o olhar distraído no horizonte.

O garçom passou por ali no mesmo momento. Pediram a primeira cerveja. Ele se foi e ficou um silêncio na mesa. Os dois se encararam algum tempo, incomodados com o silêncio mas sem saber como abordar o assunto.

– Cara, você não se anima mais com porra nenhuma, você não era assim. Não sei onde quer ir com essa palhaçada. – iniciou Gabriel.

– Eu não tenho ideia, mas sei que você certamente não vai a lugar nenhum. – disse Carlos. O calor naquele lugar estava insuportável, o que o fez limpar a testa com a manga da camisa.

Gabriel olhou-o com uma cara chocada. Estava acostumado com os dias mal humorados do amigo, mas dessa vez ele estava se superando.

– Pelo menos eu confio em mim mesmo – disse Gabriel, tentando enfatizar a frase com toda convicção que tinha.

– Porra nenhuma. – e, as palavras vindo como uma força que não se pode frear, continuou – Você quer que eu acredite nisso porque nem você acredita, e precisa que eu te convença. O que você é? Um pé-rapado vendedor de loja com 25 anos de idade, sem ensino superior e com uma cabeça cheia de besteira. Me diz Gabriel, vai dar certo? Vai dar certo mesmo? Tu acha que é assim, inventa uma merda de filme, manda para um mané qualquer e o estrelato vem?

O garçom nesse momento veio servir a cerveja, o que precipitou mais um silêncio na mesa. Ainda que estivessem em uma discussão séria, mantinham a etiqueta e a decência de não envolver o homem que ali trabalhava. Após a cerveja servida, em um gesto automático, os dois brindaram e beberam um gole.

– Tu tá é confortável nessa merda de vida. Aí fala que eu não vou conseguir nada…

– Porque tu não vai!

– Tu não sabe! – o grito saiu mais alto do que Gabriel gostaria, mas era ao mesmo tempo um desabafo – E digo mais: prefiro viver sonhando à toa do que ser um merda que nem tu. Num acredita em nada, não gosta de ninguém. Por isso que a Alice te deixou.

A lembrança passou pela espinha de Carlos como um sopro frio. Gabriel percebeu que fora longe demais.

– Desculpa cara, mas… – emendou Gabriel

– Não, você tem razão – cortou-o novamente Carlos.

Não que o pensamento nunca tivesse lhe ocorrido antes, mas aquelas palavras ditas assim, por um amigo, era diferente. Parou um tempo, pensativo.

– A verdade é que você precisa me achar um sonhador para que sua vida pareça ser a única alternativa realista. – disse Gabriel, mais calmo, ao fim de um tempo.

– E você precisa me achar um merda para que seus sonhos pareçam ser alguma alternativa. – respondeu Carlos, ainda pensativo, concluindo a frase com um sorriso provocador.

Gabriel sorriu de volta. Carlos olhou ao redor no bar. Todos estavam se divertindo – ou ao menos pareciam. O calor havia abrandado após o gole de cerveja, e o pensamento começava a caminhar livremente. Brindaram.

– Cara, tu tem que entender que tem gente aí fazendo sucesso toda hora!

– Um cara da zona sul…

– Dá para fazer cara, o filme…

– E aquele ônibus de mortos-vivos…

– Dá para fazer, não dá?

– Estamos fodidos…

– Saúde.

– Saúde.

Beberam. A noite avançava.

– Agora acho melhor ir para casa, que amanhã tenho que trabalhar. Dia de fúria é para quem tá com a vida ganha. – disse Carlos, preocupado com o horário de acordar no dia seguinte.

Despediram-se.

 

Antunes, 2013.
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Noturno apaixonado

Que pede o peito que palpita?
O toque sutil dum rosto suave,
descanso da inesgotável viagem.
Vida, surpresa em trilho, perfaz
impossível caminho. Curvo e re-
vivo esperança ora exaurida.
Insisto, minha matéria exige,
ao deleite das inconstâncias,
verdadeira humanidade – crença
animadora, luze carinhosa saudade.
Canto à sombra verso já traçado:
Amo e encontro a eternidade.

Joaquim Miguel, 2017.

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O Vendedor

Naquele dia, Zé da Muamba havia realmente dado uma sorte grande.

– Olá! Bonjour! How are you?

– Bom dia – disse o homem, em um português arrastado que denunciava não ser sua língua de origem. Naquele dia quente de verão em Copacabana, era fácil encontrar um estrangeiro.

– Quer comprar cartão postal? – disse José Alfredo, lentamente para que o homem pudesse entender, mostrando um postal com a foto do Cristo Redentor em um dia com sol forte, parecido com o que brilhava naquela tarde e reluzia na pele morena levemente suada do vendedor. Seu rosto jovem denunciava a pouca idade, e seu magro corpo parecia quase desmontar a cada passo que dava com uma profusão de mercadorias apoiadas em cada braço.

– No, thank you. Obrigado. – disse o estrangeiro, e voltou a caminhar pelo calçadão. Mas o vendedor o seguiu.

– Eu, José Alfredo. E you? – perguntou, usando seu melhor sotaque inglês e gesticulando exageradamente a cada palavra.

– Greg – respondeu o homem, sem diminuir o passo.

– Está calor, né? Hot, né? – perguntou, se abanando para mostrar o significado do que dizia.

O homem acenou que sim.

– Quer água de coco? Eu posso arranjar uma água de coco, sete reais. – e soletrou – S-E-T-E R-E-A-I-S – afinal, era importante que ele entendesse essa parte.

– No, thank you – disse, parando um pouco o passo e se virando ao vendedor -. Eu – e parou um tempo, refletindo sobre a palavra a dizer – andar! – disse por fim, feliz de ter conseguido se expressar em português e seguindo seu caminho.

– Andar para onde? Quer ir para o Cristo? Corcovado? Eu sou guia turístico também – e tirou de dentro da blusa um crachá de guia turístico oficial com a sua foto, mostrando para o homem. – quer agendar visita?

– No, please… eu andar! – disse o estrangeiro, já demonstrando claros sinais de irritação.

– Pode ir sem medo, eu ando também com você enquanto resolvemos a questão! De onde você is from? – perguntou José Alfredo, tentando organizar as poucas palavras que conhecia de inglês, aprendidas com sua experiência de vendedor, em uma frase coerente.

– Ireland… Irlanda.

– Irlanda, terra boa! Cerveja né? Beer! – e quando o estrangeiro meneou a cabeça positivamente, José continuou – então, eu vendo umas cervejas artesanais brasileiras, está interessado? Tem um cardápio aqui! – e parou para encontrar o cardápio na sacola que trazia no braço, mas quando voltou os olhos para frente o estrangeiro já estava correndo longe – pera aí gringo! Vai correr com esse tênis! Eu tenho umas palmilhas para o pé! Foot! Espera! – disse José Alfredo, mas já era tarde, ele tinha corrido o suficiente para escapar do seu alcance.

Era assim que José Alfredo se apresentava a seus clientes. Apesar de ser um adolescente, já era figura conhecida, e ganhara o apelido de Zé da Muamba nas praias da zona sul do Rio de Janeiro, pela sua fama de vender de tudo – desde livros usados até passeios turísticos. Não era difícil, assim que aparecia o sol, distinguir sua figura caminhando pela praia, corpo magro, sorriso aberto e cintos e camisas presos em cabides nos braços, uma sacola grande com todo tipo de coisas dentro, um mostrador de óculos escuros preso nas costas e uma bandana para proteger a cabeça no sol.

Quando as coisas davam errado, era só tirar o suor da testa, respirar fundo, ajeitar o sorriso e ir para outra.

– Olá! Bonjour! How are you? – e lá ia ele de novo.

A maioria do que vendia eram coisas comuns, e dependia da sua criatividade para valer alguma coisa. Já tinha conseguido uma boa grana para levar um grupo de turistas para a floresta da tijuca, dizendo que conheceriam o pantanal. Outra vez vendeu uma camisa do seu primo mais novo, da escola municipal, para um estrangeiro como se fosse uma camisa turística do Rio de Janeiro.

E era assim, de dia em dia ganhando o dinheiro para o dia seguinte. Quando o sol começava a cair era hora de ir embora. Havia feito um acordo com o comerciante de um quiosque para deixar suas coisas guardadas – em troca, deveria pagar um preço fixo mensal, mas era melhor do que transitar com aquela quantidade de coisas para casa e de volta, com o risco de perder as mercadorias ou para bandido ou para polícia. O ônibus era cheio e o corpo suado pela caminhada do dia sempre ocasionava alguns olhares hostis em sua direção.

Subindo as pequenas vielas até chegar na sua casa, lhe passavam na cabeça os eventos do dia e pensava em como melhorar para o dia seguinte, o que poderia vender que lhe garantisse uma grana a mais. Quando finalmente abria a porta, seu filho de apenas 3 anos vinha dar um abraço no pai. Mesmo com o cansaço, vê-lo trazia conforto e ele abria de novo o sorriso, dessa vez genuíno. Logo depois vinha sua esposa, jantavam e, após um pouco de televisão era hora de dormir para voltar à rotina, não sem antes colocar o dinheiro do dia dentro do armário, no lugar onde deixava as economias. Não era, assim, grandiosa a rotina, mas era com o que o Zé da Muamba havia se acostumado.

Naquele dia, no entanto, ele havia realmente dado uma sorte grande. Após descer do ônibus, fez seu trajeto até o quiosque onde guardava as coisas quando no caminho sentiu um baque em seu pé, como se topasse o pé com algum objeto. Ao olhar para baixo, viu um relógio dourado jogado no chão, com a corrente aberta mas de toda forma inteiro. Parecia caro, mas podia também ser falso, vai saber. José Alfredo olhou para todos os lados e, como não tinha ninguém, guardou no bolso para ver o que faria com isso mais tarde.

– Olá! Bonjour! How are you?

Durante o dia, a venda foi melhor do que o normal. Camisas vendidas, um celular “novo”, que era na verdade um celular velho em uma caixa nova, entre outras mercadorias exclusivas. Ele tentou vender o relógio que havia encontrado para algumas pessoas, mas ninguém se interessou. Já era de tarde e ainda não havia conseguido um comprador, o que fazia Zé se questionar se aquele relógio era de verdade mesmo.

No fim do dia, Zé resolveu voltar com o relógio para casa, por não confiar no dono do quiosque – não seria a primeira vez que coisas desapareceriam misteriosamente da noite para o dia. Não falou também nada à sua esposa, porque queria vendê-lo e ela iria querer que ficassem com ele. No quarto, todos dormindo, tirou do bolso e ficou por um tempo olhando distraído aquele relógio. Perguntava-se qual o motivo de ninguém querê-lo, principalmente em um dia onde as vendas tinham ido tão bem… pensou, pensou, e o sono veio vindo sorrateiro, e quando percebeu já era manhã. O relógio ainda estava em sua mão, e sua esposa ainda dormia. Escondeu rapidamente o artefato no bolso e levantou-se em um pulo.

Nesse dia as vendas também foram muito boas. Miseravelmente, mais uma vez Zé da Muamba não conseguiu vender seu relógio. Para dizer a verdade, do meio para o fim do dia ele já oferecia cada vez com menos vontade, apegando-se a olhar para os ponteiros dourados tediosamente caminhando pelos círculos das horas e minutos.

Ele estava descansando sentado em um quiosque naquele dia, curtindo a brisa que soprava do mar e servia de alento para o cansaço, quando viu o carro de polícia militar parar próximo. Desde menino, José tinha medo tanto de bandido quanto de polícia, motivo pelo qual, ao ser surpreendido naquele dia pelos dois policiais se aproximando dele, os dois de óculos escuros e revólveres na mão, sentiu o coração bater mais forte mesmo sem saber o motivo da iminente abordagem.

– Ô vagabundo, tá fazendo o que com esse bando de coisa? – perguntou um dos policiais.

Sem deixar José responder, continuou.

– Estão me dizendo aí que você está roubando os gringos aqui na praia, é verdade?

– Não, não, eu…

– Então revista ele aí – o primeiro disse ao outro

O homem levantou José com um braço só e colocou-o de frente para o balcão do quiosque. Não demorou muito para encontrar o relógio, que tirou e olhou como se fosse o que procurava.

– Tá aí ó, comprou isso onde, na camelô da esquina? Bota a algema nele que nós vamos dar uma volta!

Em vão José tentou se explicar, que havia encontrado na rua e que podiam ficar com ele se quisessem. Suas outras mercadorias foram jogadas no chão e boa parte foi quebrada. Quando percebeu o que ocorreria, José tentou resistir, mas não havia condição de resistir, e ele logo foi jogado no banco de trás da viatura e trancado lá.

– Ô seu filho da puta, se você quer vender suas merdas por aí, eu não tô ligando, mas se você quiser fuder a minha área, eu vou fuder com você, tá entendendo?

– Mas eu não…

– Cala a boca que sou eu que tô falando! E aí, o que a gente faz com esse aí?

E o outro policial só ria. Rodaram com o José no banco de trás por algum tempo, até parar em um lugar deserto, que José nunca tinha visto na vida.

– Sai. – disse um deles, puxando ele.

– Olha, eu juro que não sei o que é isso que eu achei, aquilo era ouro? Eu estava na rua e…

Antes de completar a frase José estava no chão, e levava um chute que o fizera interromper a frase.

– Então eu te digo o que é isso, isso é você roubar a pessoa errada, seu idiota! É claro que era ouro, vagabundo!

E mais chutes. E não falaram mais nada, só ficaram ali, chutando, e chutando, e batendo com o punho da pistola na cabeça até que tudo se apagou.

Quando José acordou, todo o corpo doía. Seu sangue fazia uma poça embaixo de seu corpo. Estava sozinho. Não sabia se haviam o deixado vivo intencionalmente ou se pararam por achar que estava morto, mas estava aliviado de ainda conseguir abrir os olhos. Com a pouca força que juntou, arrastou-se até encontrar uma rua com um telefone público e ligou para sua mulher. Tentou explicar onde estava, ela disse que ia buscá-lo, e depois sentou-se no chão, resistindo para manter os olhos abertos.

No hospital, diagnosticaram que, apesar de alguns ossos quebrados e do tempo necessário para a recuperação, ele conseguiria ficar bem. Foram, no entanto, semanas de dificuldades para a família. Ao voltar ao trabalho, após muito tempo, Zé da Muamba evitou as praias da Zona Sul, fazendo seu faturamento em outros locais como a subida para o Pão-de-açúcar, o Corcovado, entre outros. O sorriso voltou, e de pouco em pouco as mercadorias também. Mas uma lição que aprendeu ele não esqueceu mais: nunca mais vender coisas autênticas!

Antunes, 2016.

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Soneto para despedidas

Em teu ombro repousa a cabeça
enternecida pelo afago
A calma para que eu esqueça
perturbações que comigo trago

Deixo-te porque é necessário
crepúsculo turva o caminho
mas antes olho-te solidário
o beijo entorpece tal vinho

Mostras tristeza pela saída
Chegada a hora que me despeço
As mãos apartadas sem ruído

Mas eu rogo ao pé do ouvido
levarei-te comigo e peço
guarde-me um pouco na partida

Antunes, 2017.

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Revelação

A tarde escaldante punha-se
ao descanso. Estiquei as pernas
sobre a mesa, encostado à poltrona
vivia fabulosa estória. Busquei respiro.
Lá se achava, emoldurado pela janela.

Parado no ar – um beija-flor.

Miou o gato ao meu lado recostado.
O pássaro voou, voou revelador.
Nesse instantâneo, vislumbrei esse poema.

Joaquim Miguel, 2017.

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Noturno esperançoso

Não é surpresa, sabida por todos nós,
em nós todos, inevitável solidão.
Nos encontramos, sem porém,
em comum angústia. Algo desperta
certo fundamento hoje nublado – Amor.
Revolvendo ceticismo empedrado. Rocha
se esfarela, há beleza!, e o peito transborda
feliz na esperança já cantada. “Menina
amanhã de manhã, quando a gente acordar,
a felicidade vai desabar sobre os homens”.

Joaquim Miguel, janeiro de 2017.
A Tom Zé.

 

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Clarão lilás

O esforço para recriar o tom luminoso das cores que fulgiam aos meus olhos nessa noite, verdadeiras estrelas no auge do seu ânimo, o ressoar insistente do mar, um seguido d’outro, imagine seu ouvido envolvido pelo toque perolar duma concha tão clara que dela só pode emanar luz…, o apito agudo, choroso, das primeiras cigarras, descortinadoras da iminente manhã, inspirando o melodioso canto dos pássaros da aurora, cristalino como o doce contato das águas dum riacho com as úmidas e esverdeadas pedras enquanto persegue sereno o gigante oceano, o amadeirado e pendular rangido do pano contorcendo-se no bom nó que os amarra, as duas pontas, aos troncos firmes das amendoeiras de folhas largas e me recebe, deitei no ar, a carícia gélida e aveludada dos derradeiros ventos da madrugada, suavemente aquecidos por um fugitivo raio dourado, revelando num frêmito o encontro com sua pele-qual-pétala, é em meus ombros que descansa sua bochecha!, seria e sempre será em vão.

Joaquim Miguel, janeiro de 2017.

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A escolha

A rua estava vazia. Cortando o silêncio da noite, só os passos apressados desciam pela Boulevard 28 de Setembro. Havia chovido naquela noite, então volta e meia pisava em uma poça. O barulho o acordava de seus devaneios e fazia perceber como estava distraído.

Já tinha passado por aqueles mesmos lugares várias outras vezes, mas agora era diferente. Marcos contemplava em cada passo seu futuro, o vazio colocado a sua frente. O médico quis pessoalmente lhe dar a notícia. “Está em estado terminal, não há o que fazer. Dois ou três meses”. Dois ou três meses, ele repetia para si mesmo, as palavras ressoavam em seus ouvidos com um amargor que lhe descia pelo estômago. Poderia ter feito algo diferente para evitar que se chegasse a isso? Repassava na sua mente todos os tratamentos, todas as ações, arrependia-se de cada segundo em que não fizera algo que poderia levar a um futuro diferente. Seria melhor uma morte rápida, quem sabe uma bala perdida. Mas aquela morte lenta… lhe enfadava. Desde então toda a sua vida parecia uma preparação para seu funeral, um luto velado que o acompanhava. Via isso nos olhares dos que o rodeavam e sempre que fechava os olhos, para finalmente levantá-los de novo na alvorada de um novo dia.

“É aqui”, pensou consigo, e virou em uma rua escura, contornando a praça. Não era como se nunca tivesse injetado ou cheirado antes, mas o hábito se tornara usual desde a notícia de seu estado de saúde. Precisava de uma dose todo dia. “Senão a gente não aguenta”, pensava, lembrando de uma frase ouvida não sabia de quem, mas que parecia particularmente apropriada para o momento. Sonhava com coisas terríveis todo dia em que não se drogava de alguma forma. Não que fosse um grande consolo, mas por mais efêmero que fosse, servia. “Dois ou três meses”, ele disse. Era o que precisava. Desgraçado médico. Odiava-o. Se pudesse não saber, morreria assim, de repente, mantendo o mínimo de dignidade que conseguisse juntar. Aqueles desejos que projetara pareciam-lhe uma irônica farsa.

– Me dá um dinheiro aí.

Acordou de seus pensamentos e viu um moleque, devia ter uns 6 ou 7 anos, corpo magro trajado com uma bermuda velha. Pedia-lhe dinheiro. Para o inferno com ele, pensou. Ignorou-o, mas ele ainda o seguia. Pensou que ali, naquela rua deserta e escura, poderia matá-lo que não faria diferença. Mataria e esconderia o corpo em uma rua qualquer. O garoto continuava seguindo-o, parecendo insatisfeito com o fato de ter sido ignorado. Ainda que o pegassem, que importa? Logo estará tudo terminado. Sim, matá-lo talvez lhe desse um consolo. Viu-se engrandecido naquele momento, sentindo que em sua situação poderia tomar qualquer ação, liberto e juiz das coisas a seu modo. A viela estava escura. Ocorreu a Marcos que, da mesma forma, poderiam matá-lo ali. O moleque seguia pedindo, pois não desistia fácil. Não seria aquele garoto que o mataria, claro, mas alguém. Esse pensamento o perturbou. Achou engraçado que sentisse medo. Mas não queria que acontecesse assim. Chutou a água de uma poça, só para cortar aquele silêncio da rua, e olhou ao redor. O garoto não estava mais por perto. Viu que estava ficando magro, o que lhe incomodava, pois pensava que era melhor morrer corado e bem-humorado do que assim, perdendo a cor de pouco em pouco, tornando-se menos homem e mais parede.

Dois ou três meses. O que era isso afinal? Deveria se marcar uma data. Como uma cesariana, marca-se uma data, um procedimento cirúrgico e pronto. “A operação foi um sucesso, o paciente está morto”, diria o médico. Achou graça disso. Achava graça de si: agora estava ali, andava mas já não significava nada. Quando soube da notícia, manteve suas atividades como se nada tivesse acontecido. No fundo, acreditava que algo o salvaria. Duas semanas se passaram e seu estado piorou. Banhado pelas lágrimas, rodeado por pôsteres rasgados e coisas que havia quebrado pelo chão, vivenciou a fundo o sentimento de se perder. Tentou viver bebendo em bares até a madrugada. Mas todo dia acordava, e lá estava o novo dia. Além disso, com seu estado de saúde piorando, não poderia continuar assim por muito tempo. Desanimou e começou a ficar em casa. Emagrecera. Mantinha as persianas de seu quarto fechado, e desligava seu celular por dias inteiros, até que as pessoas, desistindo, pararam de ligar. Já não lhe restara muito tempo, de toda forma. Foi quando começou a frequentar ali.

Chegou ao local. Alguns já estavam curtindo suas próprias ondas, outros voltavam para casa com suas compras. Pensou que ali era uma espécie de repositório de mortos-vivos. Por isso, talvez, havia tido tanta facilidade em arranjar companhia, o único lugar em que se via em casa, todos por diferentes motivos sentindo em uma cumplicidade compartilhada. “Casa…” repetiu para si mesmo essa palavra, como se confirmando esse último pensamento. Um deles fez-lhe um aceno. Devolveu a saudação. Sentia-se bem-vindo.

Pegou o dinheiro socado em sua calça e fitou-o por um tempo. Contava as notas de forma tremida. A noite parecia particularmente fria. Tinha decidido havia pouco tempo, em uma conversa casual. Achava engraçado como às vezes conversas tão pequenas fazem tanta diferença. Seu amigo lhe perguntara se era religioso. Nunca fora. Guardou o dinheiro no bolso. A conversa fez perceber que ele não temia nem o céu nem o inferno. Respirou fundo para sentir-se seguro. Era agradável que tivesse escolhido a sua data de aniversário, um dos poucos momentos em que se sentia bem, e que forneceu a ocasião para conseguir o dinheiro necessário, apesar do inconveniente de desapontar sua família.

Colocou a mão por fora do bolso, para sentir o volume que as notas faziam. Sentiu um arrepio na espinha. “Foda-se”, pensou. Após um tempo tudo voltaria como estava antes. Desde aquele dia no médico sentia como se tivesse sido ludibriado em toda sua vida. Mas ele não temia nem o céu nem o inferno, e podia ainda escolher.

Olhou para o relógio e percebeu que já passava da meia-noite.

Encontrou-se com o vendedor, uma figura muito simpática que sempre tinha notícias agradáveis para dar.

– Como estamos hoje, marquinhos?

– Tudo tranquilo. E aí, como vão as coisas por aqui?

– Tudo bem, tudo bem. Só tem que tomar cuidado que a polícia está passando aí, não sei se vai ter alguma coisa no morro. Tem que ficar esperto.

Marcos fez que sim com a cabeça. Sentia-se especialmente leve naquele momento. Deu-lhe o dinheiro e pegou a encomenda. Parou em um canto, entre dois homens com os olhares perdidos no horizonte. Eles pareciam murmurar qualquer coisa incompreensível.

Olhou para as doses e por um tempo respirou fundo e sentiu-se reflexivo. O garoto de rua de mais cedo veio à mente. Não o compreendia completamente, sentia-se mal por sua vida. Talvez devesse ter dado a ele um trocado, afinal. Ao inferno com a moral. Sentiu-se livre ao dizer isso. “Dois ou três meses”. Que significava aquilo, afinal? Injetou a primeira dose e pensou que o menino não controlava a morte, assim como ele mesmo. Mas agora vagava como alma penada. E lembrou que o garoto gemia, o prazer aumentava, e de repente era ele quem apanhava com o velho cano, e não sabia quem o batia, e os gemidos aumentavam, seu olhar trocava a visão para lá e para cá, o garoto no chão ensanguentado, os pensamentos se embaralhavam, “dois ou três meses”, gemidos, “tio, me dá um trocado”, “dois ou três meses”, e o cano desferido contra ele, a morte, a morte inevitável, seu corpo em espasmos, “nem o céu nem o inferno”, “dois ou três…”, “tio, me dá mais um mês”, mais algumas doses, gemidos, canos, era surrado por uma velha senhora, “tio, me dá dois ou três meses”, “dois…”, “pois bem, pegue o dinheiro para seu aniversário então”, “tem que ficar esperto”, “tio”, “tio”, será que mudava de visão? Será que queria viver? “Dois ou três tios, dois ou três espertos, dois ou três trocados, me dá um mês, me dá dois ou três meses”, sentia a veia dilatar-se em seu braço e não conseguia focar o olho em algum lugar, estava confuso, não sentia-se mais determinado a nada, “um, dois, três, quatro… tio, tio, esperto, ficar esperto, ficar um mês, dois”… as coisas confundiam-se na sua cabeça e de longe ouviu que seu celular tocava. Com algum esforço apertou o botão para receber a chamada, mas não conseguia mais concentrar os pensamentos para falar, deitou com o celular ao lado. “Parabéns pra você, nessa data querida…” era a voz que soava do telefone, e ele ouvia ao longe, reconhecendo seus pais. Sua voz não saía, “muitas felicidades…”, seus olhos fechavam “um ou dois, um ou dois, um ou dois”, pensou ouvir palmas, pensou ouvir os gemidos do garoto, pensou ouvir a voz do médico, ouviu, enfim, o silêncio.

– O que aconteceu? – perguntou o homem ao seu lado, ao ver o rapaz contorcendo-se em espasmos.

– Viajou demais. Dorme. – respondeu o do outro lado.

E os dois dormiram.

Antunes, 2015.

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JM 3003

Nas palavras em que me perco enfim
a vislumbro. Luz sempiterna arder
natural em si. Em derredor perfaço
ao seu brilho infinda revolução
traçada à esferográfica no sem-fim alvo
do caderno em minha mão.
Orbito distraído por fulgor longe
longe pontilhado. Não me afasto.
Quis o criador: para compor versos
________________[necessito de calor.
Circulo acompanhado – sou mundo pequeno –
por astros visíveis a olho nu.
Caminho resignado. É gravidade.
Inglória sorte de planetinha.
Reverbero à minha forma inefável chama.

Joaquim Miguel, 2016.

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