Disparo

Com seu sorriso vão
o coronel engomado
promete redenção
manipulando o Estado

segue o mesmo padrão
quando um cara armado
fala que a solução
é o ódio no atacado

É o mesmo patrão
para ambos os lados
que para manutenção
de privilegiado

esconde informação
te quer manipulado
pois na mira estão
do cano disparado

quem sofre opressão
quem é abusado
é o trabalhador
é o desempregado

que constrói a nação
com o suor trabalhado
não com corrupção
como o deputado

não mora em mansão
pra viver isolado
e nessa confusão
seu caminho trilhado

é a mobilização
para ter restaurado
o direito ao pão
e a ser respeitado

por isso eu digo não
abandonemos o fardo
de ser mais um peão
desse jogo viciado

com a nossa união
derrubar o reinado
e já sem acordão
sem o ódio espalhado

juntos em comunhão
novo mundo esperado
será em nossa mão
que ele será gestado

Antunes, 2018.

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Uma tarde em SP

Sentada ela vê
as cores reluzirem
naquela tarde fria
em São Paulo

“Não garota,
sai daqui, não é
seu lugar”, diz um
vertido sobre seu corpo

Ela olha-o, reluz
sua face gotejando
barbas sujas misturando-se
com a fuligem

“Não é seu lugar”, repete
aumenta o brilho das cores
o casaco cinzento protege
o velho do frio

Um homem corre pela rua
quase tromba com ela
não baixa os olhos para vê-la
nem ela o vê

Perdida em pensamentos
opacos e diversos
sente-se finalmente bem
não sai dali.

Muita gente junta, ela encosta
a cabeça em um banco, um casal
bastante magro carrega um colchão
com um caixote de madeira em cima

Outro passa com seu carrinho
e com seu fiel cachorro
caminha molemente
“na outra calçada eles têm pressa”

Ele cumprimenta o velho de barba
enquanto se cobre com cobertor
para aplacar o frio
da tarde em São Paulo

A rua é suja, tremula do outro lado
uma bandeira velha do Brasil
em algum prédio público. Já ali
fede a mijo

Estampido e neblina se espalha
é a polícia, dizem, e o ar acaba
respirar é insuportável, ela levanta
tremula para andar, tal qual a bandeira

Outra bomba, mais gás, e ela corre
“seu lugar não é aqui”, diz o velho
enquanto corre por ela. Ou será outro?
Para onde corre?

A confusão não lhe deixa pensar
na terceira explosão sem destino
na terceira explosão correm,
indesejáveis, espalham-se

Sozinha, não sabe onde ir
passa o homem com o carrinho
e com seu cachorro. Ela o segue.
Há de haver outro Eldorado.

Antunes, 2017.


Reincluindo o poema…

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Reservado

A manhã já começava a arder quando cheguei a Angra dos Reis. Os raios solares batiam na janela do ônibus, aumentando a luminosidade até o ponto em que, após alguns minutos preso entre o sonho e a realidade, vi-me impossibilitado de continuar na primeira opção. Esfreguei os olhos com minha mão incerta das direções que seguia, e olhei ao meu lado para o senhor com quem eu dividia assento, que ainda dormia. Era uma viagem pequena mas cansativa a que me trazia da cidade do Rio de Janeiro para iniciar a semana de trabalho. Trabalhando no setor administrativo em uma pequena rede de farmácias da região de Angra, emprego conseguido com dificuldade em uma época de poucas oportunidades, me via obrigado a ir e voltar periodicamente de uma cidade para a outra como forma de passar os fins de semana com minha esposa e filhos, que ainda tardariam a mudar.

Com a chegada do ônibus na rodoviária, esperei que o senhor ao meu lado acordasse, e que o ônibus lentamente esvaziasse para que eu pudesse pegar a mochila onde guardava meus pertences e também sair, direto para o escritório. Cruzando a praia do Anil, cheguei ao centro da cidade. No trajeto até o trabalho havia pouco que lembrasse os paradisíacos resorts que se esperaria em uma cidade turística: olhando para aquela massa de pessoas se movendo preguiçosamente aqui e acolá na manhã de segunda-feira, fugindo do sol nos exíguos toldos das lojas que se estendiam pela Rua do Comércio, não havia o grande charme que há nos comerciais. Passar pelas ruas entre tantas cabeças, pelo contrário, me causava certa ânsia, nervosismo de driblar aquele grupo que se apertava entre calçadas pequenas e carros que transitavam pela rua de ladrilhos.

Chegando no escritório, comecei as pequenas tarefas do dia. Devo admitir que meu trabalho não é o mais animador: verificar os custos das farmácias da rede, sugerir melhorias na lucratividade, fazer o balanço são algumas das tarefas que tomam o meu dia. Além de enfadonha, minha função carrega consigo certa desvalia moral de incentivar a maximização de dinheiro proveniente, em última instância, da doença das pessoas. Por outro lado, receber um salário evita a minha doença e, de toda forma, o mundo inteiro parece andar mal. Olhando pela janela, posso ver um morador de rua sentado em um trecho um pouco mais largo da calçada, em frente a uma agência bancária. A pobreza me tomou de surpresa quando cheguei a essa cidade: sempre imaginei que os pedintes fossem privilégio das capitais. Quem sabe ele não é um dos clientes da farmácia. Fecho a persiana e me viro para o computador.

No escritório são poucas pessoas. Faço algumas previsões financeiras e converso sobre qualquer assunto com meus colegas de trabalho, bebendo um café para segurar o cansaço da viagem. Logo vai ser hora do almoço, e o sol já se foi, dando lugar a uma chuva fina e rala. Penso que o bom das constantes mudanças de tempo é que estas podem sempre se tornar objeto de conversa, e quando almoçamos isso de fato torna mais fácil o diálogo, sempre voando a esmo entre as mais diversas amenidades.

Na volta o sono começa a ficar forte, e agradeço aos céus quando o relógio me permite sair. Como tenho ficado temporariamente na cidade, me contento em reservar um quarto de hotel enquanto não consigo achar um local para alugar a um preço razoável. O hotel em que me hospedo é próximo da rodoviária, não é muito para andar mas com o cansaço do dia de trabalho convém pegar algum transporte para chegar. Faço o percurso a que já estou acostumado até o ponto de táxi, passando novamente pelas pessoas em marcha, agora voltando para suas casas ou comprando algo nas lojas, e pelo pedinte que havia observado naquele dia de manhã. Ele me pede um troco. Uma pena, estou sem moedas.

Logo chego na entrada do hotel. Passando pela porta, vislumbro o salão iluminado por uma luz fria, que destaca alguns sofás e a recepção. Faço um gesto de saudação com os dois recepcionistas por trás do balcão de mármore, que me saúdam com cortesia e pedem meus documentos. Após checar no computador, informam-me que infelizmente minha reserva não consta no sistema. “Como pode ser? Mas eu sempre fico aqui!”, disse, surpreso pela situação – afinal, já me hospedava ali há algumas semanas, e não havia passado por isso antes. Pensei que talvez uma boa camaradagem com um cliente usual pudesse ajudar a encontrar um quarto. “Desculpe senhor, todos os locais estão ocupados. É realmente necessário reservar com antecedência”. Percebi que eles não me diferenciariam de um cacto se este pudesse se mover e dar boa noite, quanto mais me reconhecer como um cliente usual. Preocupado, perguntei se ele conhecia outro local em que eu pudesse passar a noite, e ele me indicou que seguisse a rua no sentido da Rodovia Rio-Santos, virando para a direita mais à frente e chegaria em outro hotel. Com essa orientação em mente, peguei minhas coisas e parti, não sem antes receber um cortês aceno de despedida do recepcionista no meu caminho até a porta.

Caminhar pela avenida Caravelas Toscano de Brito, uma das grandes ruas de Angra, guarda ainda uma certa calma, dependendo da hora em que se passa. Respirando o ar da noite, meu caminhar era pesado, carregando com cansaço toda aquela constelação de estrelas, a lua, o vento e tudo o que pesava sobre minha cabeça. Cheguei ao fim de um tempo no hotel. Era de maior qualidade, certamente um preço mais caro. Já havia visto as acomodações passando por ali, o fundo dava para uma pequena baía e nos arredores a disparidade entre o luxo turístico e a dura realidade da maioria dos moradores da cidade se fazia presente. Entrei pelo lobby e o recepcionista, localizado do outro lado de um balcão de madeira impecavelmente envernizada, pediu meus documentos. Dei-lhe e tentei explicar meu caso, eu não tinha reserva mas… não consegui terminar a frase e fui notificado de que não havia quartos disponíveis, pois todos estavam ocupados ou reservados. Que azar! Estranhei e perguntei se estava havendo algum evento na cidade. “Senhor, não sei informar, mas é sempre recomendável que se faça a reserva com antecedência. Se você quiser, podemos reservar para a semana que vem”. Bem, isso não adiantava de muita coisa. Respirei fundo e perguntei se conhecia outro hotel: isso ele também não sabia informar, mas ofereceu um táxi. Aceitei e, quando chegou o veículo, pedi que fosse a algum hotel nas redondezas que ainda pudesse ter vagas.

Não se imaginaria que fosse tão difícil dormir em uma noite de segunda-feira Mas o hotel seguinte estava lotado, e o outro, e o outro depois desse. “É, aqui é difícil mesmo, a cidade tem os turistas, por isso é necessário reservar antes”, disse ele. “Sim, é que o hotel perdeu minha reserva”, tentei explicar. “Mas é bom ligar antes para reservar mesmo assim”, foi a resposta dele, o que me fez perceber que ele provavelmente não se importava muito com o que eu dizia. A conversa fazia-se assim, para ocupar o espaço do tempo em que rodávamos pelas intermináveis ruas. Seus olhos cada vez se perdiam mais, o que me dava a impressão de que ele mesmo já não tinha plena ideia de onde estava indo. Após um tempo encontramos mais um hotel, para receber a mesma notícia: todas as acomodações estavam ocupadas ou reservadas. E nada que eu pedisse ou argumentasse demovia os recepcionistas da ideia de que não poderiam encontrar um quarto que estivesse livre.

O que poderia fazer? Que estranho desígnio moldava meus passos neste dia? A noite ia ficando mais fria, o cansaço parecia pesar os movimentos e, ao cabo de um tempo, parecia pesar também os pensamentos. Já desgastado com a procura em vão e preocupado com a conta crescente no taxímetro, pedi que o motorista me levasse de volta à rodoviária. Ali poderia sentar um pouco sozinho, quem sabe ter alguma ideia diferente. Ele deixou-me, não sem antes solicitamente dar o seu número caso eu precisasse de mais ajuda e lembrar novamente que “nessas coisas de estadia bom mesmo é dar uma ligada antes para garantir que tem lugar”, enquanto dava partida no carro para ir embora.

Naquela rodoviária bastante modesta, eu já me sentia mais familiarizado, ao menos. Sentar-se, no entanto, não parecia possível: as pessoas estavam esperando a saída dos ônibus e as cadeiras onde eu poderia sentar estavam todas ocupadas. Sem querer mais ficar em pé, sentei no chão e apoiei minhas costas em uma parede, respirando fundo e repassando o meu dia em mente. Pensei na viagem, pensei no trabalho, nas voltas pela cidade. Olhei para o relógio, eram quase nove e meia da noite. Lembrei da minha família, a essa hora eles estavam em casa, provavelmente vendo televisão. Será que sentiam falta de mim? Será que minha esposa se preocuparia de eu não ter ligado até agora? Enviei uma mensagem de texto dizendo que já estava no hotel e estava tudo bem, para que ela não ficasse preocupada. Estava assim, pensando, pensando, e de repente senti uma pancada na costela. “Vamos, acorde!”, disse o segurança da rodoviária. “Não pode dormir na rodoviária”. Levantei a cabeça ainda perdido, e percebi que havia caído no sono. Levantei-me meio desconcertado, sentindo que todos no local olhavam para mim. Olhei o relógio, eram dez da noite.

Resolvi então dar uma caminhada, para acordar e ver se conseguia pensar em algo. Talvez se procurasse mais, pelas cidades vizinhas, e depois voltar… procurei pelo telefone do taxista e liguei, mas o número dava ocupado. Liguei de novo, ocupado outra vez. De toda forma provavelmente não seria uma boa ideia. Caminhando pela rua, vi-me em frente ao primeiro hotel. Quem sabe eles não me deixariam pelo menos descansar em algum local qualquer só hoje, e amanhã achava um local para dormir no resto da semana? “Infelizmente senhor, as regras da casa proíbem esse tipo de coisa. Não podemos abrigar pessoas fora dos quartos. Hoje não temos acomodações, é bom sempre reservar com antecedência.”, disse o recepcionista, sempre cortês. Será o mesmo recepcionista? Olhei para o relógio. Dez e meia, meia hora tinha se passado somente. Cansado e antevendo a tarefa impossível que seria persuadir o recepcionista, voltei para as ruas.

Aquela última conversa só acentuava o absurdo de minha situação. Resolvi que voltaria para o Rio de Janeiro. Explicaria ao meu chefe essa situação e ele haveria de compreender; e se não entendesse, que me demitisse – afinal, qualquer coisa seria melhor do que esse caminhar para lá e para cá sem fim. Voltei novamente para a rodoviária, escapei como pude dos olhares rudes dos seguranças e pedi à recepcionista um bilhete para o Rio de Janeiro. “Senhor, há somente um ônibus saindo ainda essa noite para o Rio e ele já está lotado. Desculpe, mas o senhor terá que comprar para outro dia”, foi a resposta da moça do outro lado do balcão. Isso é impossível, pensei. Tentando encontrar alguma calma sentei em uma cadeira vazia da rodoviária para pensar. “Com licença, o senhor vai embarcar em algum ônibus?” – perguntou o segurança, com cara de poucos amigos – “Rodoviária não é local para se dormir”, disse sem me dar tempo para responder sua pergunta. Vi que alguns funcionários olhavam na nossa direção e me senti envergonhado. Sentindo-me sem opção, coloquei a mochila nas costas com desânimo e saí da rodoviária.

De novo na rua, sentindo que ela diminuía ao meu redor e me apertava, resolvi andar sem direção. O ar, que outrora parecia fonte de calma, agora só aumentava o meu sentimento de frustração. Caminhando uma esquina aqui, outra ali, deparei-me subitamente com o morador de rua que havia visto mais cedo. Estava de novo perto do trabalho sem ter reparado. Olhei o relógio. Onze e dez. Ele dormia. Já me sentindo desnorteado, meus pensamentos confusos fazendo agir por instinto, sentei e encostei-me na parede da agência bancária, ao seu lado. Não seria muito tempo até a manhã vir trazer algo de diferente, bastavam só alguns minutos…

Acordei com um empurrão que por pouco não fez minha cabeça chocar-se contra a parede que separava a agência do estabelecimento seguinte. Assustado, enquanto ainda tentava me lembrar onde estava, senti uma pressão puxando minha mochila. Instintivamente puxei de volta e aos poucos minha lucidez foi voltando, para ver o morador de rua com os olhos arregalados, uma aparência doentia e puxando minha mochila, ao mesmo tempo que gritava “Aqui é meu lugar! Meu lugar!”. Levantei-me de um salto sem largar minha mochila, e assim que consegui puxá-la de suas mãos corri sem olhar para trás, só parando quando o absoluto silêncio da rua me dava certeza de que ele não me seguia. Olhei para o relógio. Eram quase duas da manhã.

A corrida me levou a uma praça com grama verde, em um terreno inclinado que ia dar em uma imponente igreja iluminada. Meu olho pesava, minha perna doía e passando a mão pelo rosto senti minha fronte úmida pelo suor da corrida. Sentei por um tempo ali, observando os carros passarem, desabotoando minha camisa para deixar a noite fria invadir o calor que eu sentia. Respirei fundo e fiz um esforço para tentar manter-me acordado até de manhã, em que seria mais fácil tentar resolver as coisas. No entanto, acordei rolando pela grama, enquanto uma mão me levantava pela gola. “Levanta que a praça não é lugar para vagabundo dormir!”. Olhei para cima e vi a cara de um policial, se avermelhando e escurecendo frente à iluminação propiciada pela sirene do carro. Consegui com esforço me desvencilhar das mãos que me puxavam, disse que eu era trabalhador, amanhã iria para o trabalho e que não tinha para onde ir. Ele respondeu que isso era a conversa de todo vagabundo, e me empurrou para a viatura. Percebi que tinha um outro policial olhando à distância. Desanimado, pensei que talvez nem eu acreditasse no que estava dizendo se não fosse eu a estar nessa situação. Quando estava já para entrar na viatura de polícia ele me deu um último empurrão, dizendo que ali era espaço público, não era lugar de gente como eu.

Deitado em uma pequena prisão, sob ameaças dos policiais, fitava o teto imóvel e a parede descascada, viajando os olhos de um para outro lugar. Mas não foi uma lágrima que escorreu, nem rendi-me ao desespero. Pelo contrário, um sorriso desenhou-se no meu rosto em uma felicidade inesperada até para mim e, naquele lugar apertado, guardado para mim, virei o rosto para o lado, fechei os olhos e flutuei pelas largas asas dos sonhos bons.

Antunes, 2015.


Texto reincluído com alguns poucos ajustes…

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Mortalha

que és tu, noturno ser
cujo braço me enlaça
tal véu que vem a descer
um fardo que me abraça

azedume das agruras
repousa em pensamento
e nas horas mais escuras
volta a mim como tormento

tento fuga sem efeito
me repulsa o empecilho
mas perdido em seu leito
dele não me desvencilho

no passado já puniram
pessoas em teu alento
mesmo assim não te impediram
tu seduzes violento

longe do meu egoísmo
que deitado em ti me encolho
pés à beira do abismo
mortalha me cobre o olho

Antunes, 2018.

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Travessia

Toda a rua reluz
interminável mundo
correndo pelas teias
falas habituais

É som que se reduz
mas reverbera absurdo
cruza pela soleira
devora minha paz

Canso-me do capuz
que uso e que mudo
quando o olhar tateia
as ruas distritais

A mente reproduz
os fracassos ao fundo
entorpece na veia
o que ainda satisfaz

Travessia traduz
oculto em um muro
é a fuga que freia
sentir-me incapaz

Silêncio, não há mais
nada que se receia
e contemplando tudo
concebo minha cruz

Antunes, 2018.

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Uma tarde no litoral

João estava sentado com a cabeça escondida nas mãos. Quem visse o jovem assim, na cadeira da delegacia, imaginaria que ele era o acusado, ainda mais que em cidade pequena a conversa logo espalha. Mas ainda não. João estava junto com outras duas pessoas, Marcelo Serra, seu patrão, e Enzo Serra, seu filho, esperando para serem ouvidos pela polícia. Lá fora alguns repórteres, que o caso havia sido de grande comoção.

A cidade litorânea, normalmente pequena, no verão era tomada por turistas devido aos atrativos naturais e belas praias. Banhavam-se nas cristalinas águas sob o sol quente, dias assim paradisíacos como fizera naquela tarde, quando a lancha em que estavam os três, seu patrão, o filho e ele, perdera o rumo ao sair da margem e passara por cima dos turistas que tomavam banho. Os gritos, a cena grotesca do corpo despedaçado de um dos turistas, cujo nome sequer sabia, ainda com vida mas já dilacerado e aleijado, boiando enquanto o sangue espalhava-se estimulando o interesse dos peixes, que se acumulavam entre os restos mortais agonizantes, não sairia de sua cabeça. Além deste, uma mulher havia morrido no caminho para o hospital e duas pessoas haviam ficado gravemente feridas.

Seu patrão havia ido primeiro conversar com a polícia, na parte interna da delegacia, e por isso estava ali, esperando. João culpava-se por ter deixado Enzo, o filho do patrão, dirigir. Na verdade, não havia propriamente deixado, pois este, embriagado pelas cervejas tomadas no dia na praia, aguardou um momento de distração quando estava preparando a lancha para sair e acelerou. Assim que ele percebeu, correu para tentar corrigir o erro, houve uma disputa e antes de retomar plenamente o controle o desastre já estava feito.

Era nisso que João pensava quando Marcelo Serra chamou o seu nome. Levantou o olho e encontrou o patrão logo a frente da divisa do balcão da polícia, com sua camisa polo branca de marca que delineava seu corpo gordo e os óculos escuros ainda dobrados na gola da camisa. Fez um gesto para que o seguisse e entrou pela delegacia. João seguiu-o, e pararam em uma sala isolada, só com os dois.

A sala tinha duas cadeiras e uma mesa de madeira, bastante simples, e podia ser vista pelo resto da delegacia, do lado de fora. Apesar da situação em que se encontravam, Marcelo não parecia preocupado quando iniciou a conversa:

– João, está tudo bem? – perguntou, como forma de iniciar a conversa, e como recebeu uma resposta positiva, continuou – Pois bem. Conversei com os policiais, eles começarão a nos ouvir. O que eu queria falar contigo é sobre como nós podemos passar essa informação, de maneira a que todos possam sair daqui da melhor forma possível.

– Sim patrão, eu também estou muito triste com o que aconteceu. – disse João, olhando para o semblante tranquilo de seu interlocutor e pensando que, talvez, ele fosse na verdade o único triste com o que aconteceu – Não sei como vamos…

– Sim, uma tragédia – cortou-o Marcelo. João não tentou seguir falando. – Veja, meu filho cometeu um erro. Isso é verdade, mas ele só tem 19 anos, uma vida toda pela frente, cometeu um erro normal de jovem, querendo fazer uma brincadeira depois que bebe, todo mundo já passou por isso, certo? – fez uma pausa mas, como João não fazia gesto de que diria nada, continuou – Pois bem, eu pensei que seria melhor para todos se, nesses relatos, nós tentássemos mostrar o quão acidental foi o ocorrido. Talvez, ao invés de contar todos os detalhes, poderíamos pensar em uma forma melhor. Você era o marinheiro então de toda forma seria culpado pelo que ocorreu – ele dizia isso professoralmente, como se quisesse que João seguisse um raciocínio complexo que ele tentava tornar fácil – a sua punição de qualquer forma será dura. Então se você simplesmente disser que escorregou, digamos, e acelerou o barco acidentalmente. É uma falha humana, pode acontecer.

Disse isso e parou, à espera de uma reação. João permanecia em silêncio.

– Você quer que eu assuma a culpa pela morte dos turistas? – disse o marinheiro, por fim.

– Veja, você vai ser culpado de qualquer forma – falava agora de forma mais dura – e eu estou tentando um acordo para beneficiar os dois. Se você se propuser a ajudar, eu garanto um bom advogado para você, o melhor que há. Você tem família, garoto?

João balançou a cabeça positivamente.

– Então, se chegarmos a um acordo você talvez fique um tempo preso, claro, até a poeira baixar, mas depois a gente te coloca para fora sem problema. E eu vou ajudar a sua família e você a se manterem enquanto isso durar, e é claro que também estou disposto a disponibilizar algum dinheiro para ajudar em outras coisas que você precise, para compensar por todo esse problema.

João não era estudado como Marcelo Serra, mas entendia o que ele queria dizer. Nunca pensara em lidar com algo assim em sua vida, sempre marcada pela tranquilidade dos mares e as dificuldades para manter o pão em casa para a família, formada pela sua mãe e outros dois irmãos, uma vida simples mas correta. Sabia o quanto o patrão era poderoso. João olhava-o, pensativo. Empunhava seu relógio de ouro, que consultava impacientemente esperando pela resposta. Enzo, seu filho, nada tinha de comum com os jovens que conhecia de sua casa e vizinhança. De pele bem cuidada, dançando com as palavras a cada sentença, semelhante ao pai. Sempre falando em tom de brincadeira, nunca havia o tratado mal – na verdade, nunca o tratara, propriamente, pois tinha-o como invisível, o que João preferia, para evitar qualquer problema. Já trabalhava para a família havia um ano, conduzindo a lancha sempre que necessário, além dos cuidados com a embarcação.

– E então rapaz? Como vai ser? – disse Marcelo, já sem mais vontade de esperar.

– E se a polícia descobrir que é mentira? – disse, por fim, João, com a única pergunta que lhe veio a cabeça para ocupar o tempo.

Marcelo deu uma risada de leve

– Bem, isso não é de se preocupar, só tínhamos nós como testemunhas, ninguém mais estava no barco, e eu vou acompanhar o caso, se houver algum imprevisto eu vou lidar da melhor forma possível. Não tem erro, é como eu disse: vai ser melhor para você também.

– E se eu disser que não? – disse, incerto.

– Não tem problema, claro! Eu entendo. Mas é evidente que eu não vou poder ajudar com as custas de advogado e esses outros gastos processuais para o seu caso. – caminhou pela sala, observando a janela que conectava com o lado de fora, e voltando, com um tom de ameaça dissimulada, continuou – Mas, como eu disse, a sua omissão como o marinheiro responsável também vai te colocar em maus lençóis, garoto.

João olhava também para o lado de fora. Sentia-se esgotado e cada vez mais sem opção. Ainda lembrava do corpo despedaçado no mar, agonizante.

Marcelo percebeu o estado de confusão de João e sacou um pedaço de papel e uma caneta do bolso.

– Aqui, eu vou escrever o valor que eu estou disposto a dar à sua família, e você olha para esse valor e pensa se vale a pena ou não. Mas você vai ter que responder agora, e se você disser que não, eu vou sair daqui e não falamos mais disso, ok?

João sentia como se todas as ações do patrão fossem encenadas, um grande teatro em que ele fazia parte inadvertidamente. Marcelo escreveu no papel e mostrou: era muito mais dinheiro do que havia conseguido juntar em toda a vida. Lembrou de sua mãe, que o esperava em casa, e para quem se dedicava tanto para retribuir todos os sacrifícios que fizera. Após o abandono do pai, indo para não se sabe onde, ela o havia sustentado e aos irmãos. Apesar das dificuldades, sempre esteve presente, com sua sabedoria e paciência para as travessuras dos três filhos. Ainda lembrava dela, soberana no sol escaldante da praia enquanto as crianças corriam por todo lado. Agora ele, o mais velho, já trabalhava e os outros dois começariam em breve. Olhou novamente o papel e respirou fundo.

– E você acha que lá fora vão me odiar muito? – perguntou, quase inocentemente.

– As pessoas esquecem garoto. Esquecem fácil, fácil – disse Marcelo, passando a mão no ombro de João e entendendo que se havia chegado a um acordo.

Olhando os repórteres e os curiosos ao sair, João sentia como se estivesse sonhando.

————————————-

Os jornais da pequena cidade estamparam em primeira página: “Marinheiro perde controle de lancha, mata duas pessoas e fere mais duas”. Na notícia, declarava que o dono da lancha estava presente na hora do acidente mas não daria nenhuma declaração. João não soubera disso, pois desde que saíra da delegacia, permitido aguardar em liberdade após o patrão pagar sua fiança, havia se enclausurado em casa. De toda forma, poucos vinham visitar, e sua mãe guardava-o destas interações, sabedora do efeito que teria no filho voltar a falar do que ocorreu. Naquela casa ninguém mais falava do assunto, nem ela nem os irmãos, mas mesmo o silêncio fazia pesar o ar, dando ao ambiente outrora alegre um permanente ar de melancolia.

Quando chegou em casa, ao sair da delegacia, ainda sem a fama repentina que teve logo após os depoimentos chegarem nas mãos da imprensa, sua mãe o esperava, olhos cheios de preocupação. Apenas abraçou-a e, entre os vacilos na voz das lágrimas que anunciavam chegada, adivinhando a avalanche que se avizinhava, só conseguiu dizer:

– Desculpe, mãe…

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Pela porta entreaberta

Tudo está vazio
a sala, o armário, gaveta
Tudo está vazio
meus olhos e teu coração
Tudo está vazio
o dia, tornado sarjeta
Tudo está vazio
o resto espalhado no chão
Tudo
____está

Antunes, 2018.

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Rotina educadora

O alarme toca, seis horas, tateio no escuro “só mais dez minutos”. Não sei o tempo corrido, o apito insistiu. Uma ducha rápida pra lavar o sono, não há tempo para o café, tomo quando chegar na escola. Nem mesmo o dia definiu-se ainda, incerto se nubla ou abre. Até o ponto de ônibus o caminho é ainda despertar, pessoas coçando os olhos, passos que sabem do próprio atraso, mas não conseguem mais velocidade, o trabalho aguarda. Crianças uniformizadas aparentam similar tensão, a escola aguarda. É realmente necessário nos levantarmos tão cedo? Qual corpo deve acordar antes de repousado? O ponto está cheio. Os ônibus se aproximam, pescoços e braços se esticam ansiosos pelo transporte.

“Bom dia” o motorista é o mesmo, responde minha saudação num gesto simples, ligeiro aceno com a cabeça, suas olheiras não deixam esconder as exigências que a noite anterior demandou. Com ele dirigindo não chego tarde. Quase todos no ponto sobem nessa linha, os bancos ainda vazios, gelados, pouco a pouco são ocupados, procuram assento solitário, economizam palavras. Os espaços são logo preenchidos, rostos conhecidos embarcam, companheiros de viagem. No trajeto alguns se distraem com a paisagem, olhares perdidos, outros, a maioria, empunham o celular e dedos já agitados desmentem o semblante sonolento. Eu os observo. O engarrafamento é sempre nessa junção, buzinas disparam e acompanham o apito dos guardas esforçados em fazer fluir os carros e ônibus amontoados, vencida essa barreira falta pouco. Sete horas.

A escola fica numa rua estreita, só um carro por vez, no pé do morro do Andaraí. Ainda está fechada. Na padaria a poucos passos vou atrás do café, empurrão para a jornada. “Hoje é só o cafezinho, sem o pão com manteiga”, e a sorridente balconista não demora. É uma casa de pintura branca e detalhes cinzas, emparedada entre construções parecidas, sem qualquer pista de que abriga uma escola. Da porta vê-se uma escada ascendente e sentado numa carteira logo após o último degrau está o inspetor, esbaforido, em suadouro, apelidado o Carcereiro. O primeiro aluno chegou, não é para minha aula. Independência do Brasil, Grandes Navegações, Escravidão, Revolução Russa, quem se anima com uma aula dessas logo de manhã? Aguardo na sala.

A primeira da turma chega, é a única dessa série e divide a sala com outros dois, de série e idade diferente. “Como foi o final de semana?”, não pôde ir na festinha com os amigos, a mãe, seguidora fervorosa de uma vertente pentecostal não permite que a menina saia. Chegam os outros dois. “Sim, podem dormir até a hora da nossa aula”. Preencho o quadro negro com os apontamentos e a menina copia automaticamente, “pode cair na prova sim”. Sento perto dela e tento levar a aula como uma conversa informal, aproximar os anos da Regência durante o Império do cotidiano dela é tarefa hercúlea. O que ela quer conhecer? O tédio é indisfarçável, mas desfeito quando o outro menino atira nela um pedaço de papel e pergunta sobre alguém. Isso a interessa. Segue uma cosquinha, deu o tempo, é hora da aula para os outros dois. “Claro, vá ao banheiro”. Ele chegou sem uniforme e o Carcereiro não iria liberar sua entrada, disse ser ele quem mandava, contou o menino que só entrou quando o proprietário da escola, também diretor, desautorizou o inspetor, esse era o motivo do atraso. A aula dois outros dois seguiu a mesma toada, para eles minha voz sem interrupção esquadrinhou a Crise de 1929. “Alguma dúvida?”, nenhuma. Nove horas.

Sentado em frente a mesa junto a porta da sala onde eu dera as primeiras aulas estava o diretor. Grisalho, olhos escondidos sob uma larga sobrancelha e a boca, miúda, não resistia as enormes bochechas como a de um buldogue, sorrir o faria levantar muito peso. Me cumprimenta mudo, sigo para a outra aula, essa turma fica numa sala subterrânea, sem janelas e com paredes de azulejo branco. Só um aluno me aguardava, deitado sobre os braços feitos de travesseiro. “Como você está, meu amigo?” é um pouco mais velho que os das primeiras turmas e de série mais avançada. Depois de se espreguiçar ele me entrega uma folha de papel. “E os outros?”, faltaram sem dar notícia. No papel ele fez o exercício que propus no encontro anterior: um diálogo entre um sujeitos de tempos distintos, um medievo e um iluminista. A criatividade das palavras chamou menos a atenção que o cuidado demonstrado em descrever os pontos de vista e apaziguar os sujeitos, “mas o que você pensa?”. O menino não gosta de opinar, evita conflitos e desagrados. Tornou-se esse o tema da aula, se colocar no mundo. Entre situações narradas e algumas risadas notamos que o relógio correu e era hora do recreio. Sugerir que se manifeste sobre suas convicções como uma prática de liberdade não combinava com a sala-masmorra onde estávamos. “Outro cafezinho e um pão…” com ovo, terminou a frase a mesma moça sorridente da padaria. Quisera levá-los a rua, conversar sob o céu agora claro e fazer disso aula, são História os desdobramentos que no tempo levam-nos, muitos de nós, a comportamentos passivos quando a existência exige posicionamento.

De volta na escola encontro com os outros professores, só revelam lamúrias. Esse aluno não quer nada, aquele é preguiçoso, são tão poucos. Para o diretor falta consideração com o investimento custoso dos pais. A mim sempre pareceu que os pais ignoram o que se passa nessa escola. Jamais fui questionado ou orientado quanto a uma vertente pedagógica, nenhum professor foi. Tomei o descaso como liberdade. Faltava apenas mais uma aula, onze horas.

É a turma dos mais novos. Essa sala tem janela, mas sempre fechada, muito barulho. São dois. As Capitanias Hereditárias foram conversadas como encenação. “Você é Dom Fulano, e você o Rei de Portugal”, eu sou o rei!, exclamou um dos meninos rindo do outro que retrucou dizendo preferir ser nobre, rei é muito chato. “Sim, tenho cinco pra ajudar o troco”, o carcereiro irrompeu pela sala para fazer o pagamento da minha diária. “Você acha que o rei lhe daria terras sem querer algo em troca?”. Viu como é melhor ser rei?, continuou o garoto, e o rei ainda fica com todas as garotas, concluiu triunfante. “Sim, eu já beijei uma garota”, respondi a pergunta feita entre risotas. Como era? É bom? Eu acho que nunca vou beijar alguém. Foi o que se seguiu, queriam conversar sobre garotas. Toca o telefone de um deles, passáramos dez minutos da aula, a mãe estava aflita com o filho que não chegou para o almoço. Turma liberada. Segui para o ponto de ônibus, estava só. Estiquei meu braço para o ônibus que vinha apressado. Boa tarde professor!, passou o garoto que não gostava de opinar, “Até amanhã”. Meio dia.

Joaquim Miguel, 2017.

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No silêncio

Chegas pela porta
bolsa caindo do ombro
olhar meio cansado
do dia de correrias

Admiro tua força
que mostras sempre
embalada no meio
de risos alegres

Amo-te, leito terno
onde deságua o rio
dos anseios correntes
que fluem em mim

Penso tudo isso
vejo-te e não falo
somem as palavras
por que emudeço?

Queria eu ser capaz
de belas declarações
que pudessem mostrar
o que guardo em mim

Que fossem conforto
nos dias agitados
e que fossem alento
para tuas tristezas

Estou eu perdido
em meus pensamentos
quando tu me chamas
já impaciente

“O controle!”
Sumiu. Onde está?
Procuro contigo
no sofá da sala

Sentamos e ajeitas
a cabeça em meu ombro
uma brisa pela janela.
Mais uma noite normal

Antunes, 2017.

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Instante

Ao peito assombrado surge gigante
a noite. Fantasmas desiludem
esperança acanhada feita aurora.
Agora descrença à magnífica sombra
protetora da pungente verdade: amor
é instante suspenso. Sol de mechas douradas
impossíveis, desvanece ao toque dos dedos
carinhosos, insistentes em acaricia-los.
Escorrego na infinita escuridão
desejoso de luz ia condenado
à nova quimera disfarçada.

Joaquim Miguel, 2016.

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