Revelação

A tarde escaldante punha-se
ao descanso. Estiquei as pernas
sobre a mesa, encostado à poltrona
vivia fabulosa estória. Busquei respiro.
Lá se achava, emoldurado pela janela.

Parado no ar – um beija-flor.

Miou o gato ao meu lado recostado.
O pássaro voou, voou revelador.
Nesse instantâneo, vislumbrei esse poema.

Joaquim Miguel, 2017.

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Noturno esperançoso

Não é surpresa, sabida por todos nós,
em nós todos, inevitável solidão.
Nos encontramos, sem porém,
em comum angústia. Algo desperta
certo fundamento hoje nublado – Amor.
Revolvendo ceticismo empedrado. Rocha
se esfarela, há beleza!, e o peito transborda
feliz na esperança já cantada. “Menina
amanhã de manhã, quando a gente acordar,
a felicidade vai desabar sobre os homens”.

Joaquim Miguel, janeiro de 2017.
A Tom Zé.

 

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Clarão lilás

O esforço para recriar o tom luminoso das cores que fulgiam aos meus olhos nessa noite, verdadeiras estrelas no auge do seu ânimo, o ressoar insistente do mar, um seguido d’outro, imagine seu ouvido envolvido pelo toque perolar duma concha tão clara que dela só pode emanar luz…, o apito agudo, choroso, das primeiras cigarras, descortinadoras da iminente manhã, inspirando o melodioso canto dos pássaros da aurora, cristalino como o doce contato das águas dum riacho com as úmidas e esverdeadas pedras enquanto persegue sereno o gigante oceano, o amadeirado e pendular rangido do pano contorcendo-se no bom nó que os amarra, as duas pontas, aos troncos firmes das amendoeiras de folhas largas e me recebe, deitei no ar, a carícia gélida e aveludada dos derradeiros ventos da madrugada, suavemente aquecidos por um fugitivo raio dourado, revelando num frêmito o encontro com sua pele-qual-pétala, é em meus ombros que descansa sua bochecha!, seria e sempre será em vão.

Joaquim Miguel, janeiro de 2017.

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A escolha

A rua estava vazia. Cortando o silêncio da noite, só os passos apressados desciam pela Boulevard 28 de Setembro. Havia chovido naquela noite, então volta e meia pisava em uma poça. O barulho o acordava de seus devaneios e fazia perceber como estava distraído.

Já tinha passado por aqueles mesmos lugares várias outras vezes, mas agora era diferente. Marcos contemplava em cada passo seu futuro, o vazio colocado a sua frente. O médico quis pessoalmente lhe dar a notícia. “Está em estado terminal, não há o que fazer. Dois ou três meses”. Dois ou três meses, ele repetia para si mesmo, as palavras ressoavam em seus ouvidos com um amargor que lhe descia pelo estômago. Poderia ter feito algo diferente para evitar que se chegasse a isso? Repassava na sua mente todos os tratamentos, todas as ações, arrependia-se de cada segundo em que não fizera algo que poderia levar a um futuro diferente. Seria melhor uma morte rápida, quem sabe uma bala perdida. Mas aquela morte lenta… lhe enfadava. Desde então toda a sua vida parecia uma preparação para seu funeral, um luto velado que o acompanhava. Via isso nos olhares dos que o rodeavam e sempre que fechava os olhos, para finalmente levantá-los de novo na alvorada de um novo dia.

“É aqui”, pensou consigo, e virou em uma rua escura, contornando a praça. Não era como se nunca tivesse injetado ou cheirado antes, mas o hábito se tornara usual desde a notícia de seu estado de saúde. Precisava de uma dose todo dia. “Senão a gente não aguenta”, pensava, lembrando de uma frase ouvida não sabia de quem, mas que parecia particularmente apropriada para o momento. Sonhava com coisas terríveis todo dia em que não se drogava de alguma forma. Não que fosse um grande consolo, mas por mais efêmero que fosse, servia. “Dois ou três meses”, ele disse. Era o que precisava. Desgraçado médico. Odiava-o. Se pudesse não saber, morreria assim, de repente, mantendo o mínimo de dignidade que conseguisse juntar. Aqueles desejos que projetara pareciam-lhe uma irônica farsa.

– Me dá um dinheiro aí.

Acordou de seus pensamentos e viu um moleque, devia ter uns 6 ou 7 anos, corpo magro trajado com uma bermuda velha. Pedia-lhe dinheiro. Para o inferno com ele, pensou. Ignorou-o, mas ele ainda o seguia. Pensou que ali, naquela rua deserta e escura, poderia matá-lo que não faria diferença. Mataria e esconderia o corpo em uma rua qualquer. O garoto continuava seguindo-o, parecendo insatisfeito com o fato de ter sido ignorado. Ainda que o pegassem, que importa? Logo estará tudo terminado. Sim, matá-lo talvez lhe desse um consolo. Viu-se engrandecido naquele momento, sentindo que em sua situação poderia tomar qualquer ação, liberto e juiz das coisas a seu modo. A viela estava escura. Ocorreu a Marcos que, da mesma forma, poderiam matá-lo ali. O moleque seguia pedindo, pois não desistia fácil. Não seria aquele garoto que o mataria, claro, mas alguém. Esse pensamento o perturbou. Achou engraçado que sentisse medo. Mas não queria que acontecesse assim. Chutou a água de uma poça, só para cortar aquele silêncio da rua, e olhou ao redor. O garoto não estava mais por perto. Viu que estava ficando magro, o que lhe incomodava, pois pensava que era melhor morrer corado e bem-humorado do que assim, perdendo a cor de pouco em pouco, tornando-se menos homem e mais parede.

Dois ou três meses. O que era isso afinal? Deveria se marcar uma data. Como uma cesariana, marca-se uma data, um procedimento cirúrgico e pronto. “A operação foi um sucesso, o paciente está morto”, diria o médico. Achou graça disso. Achava graça de si: agora estava ali, andava mas já não significava nada. Quando soube da notícia, manteve suas atividades como se nada tivesse acontecido. No fundo, acreditava que algo o salvaria. Duas semanas se passaram e seu estado piorou. Banhado pelas lágrimas, rodeado por pôsteres rasgados e coisas que havia quebrado pelo chão, vivenciou a fundo o sentimento de se perder. Tentou viver bebendo em bares até a madrugada. Mas todo dia acordava, e lá estava o novo dia. Além disso, com seu estado de saúde piorando, não poderia continuar assim por muito tempo. Desanimou e começou a ficar em casa. Emagrecera. Mantinha as persianas de seu quarto fechado, e desligava seu celular por dias inteiros, até que as pessoas, desistindo, pararam de ligar. Já não lhe restara muito tempo, de toda forma. Foi quando começou a frequentar ali.

Chegou ao local. Alguns já estavam curtindo suas próprias ondas, outros voltavam para casa com suas compras. Pensou que ali era uma espécie de repositório de mortos-vivos. Por isso, talvez, havia tido tanta facilidade em arranjar companhia, o único lugar em que se via em casa, todos por diferentes motivos sentindo em uma cumplicidade compartilhada. “Casa…” repetiu para si mesmo essa palavra, como se confirmando esse último pensamento. Um deles fez-lhe um aceno. Devolveu a saudação. Sentia-se bem-vindo.

Pegou o dinheiro socado em sua calça e fitou-o por um tempo. Contava as notas de forma tremida. A noite parecia particularmente fria. Tinha decidido havia pouco tempo, em uma conversa casual. Achava engraçado como às vezes conversas tão pequenas fazem tanta diferença. Seu amigo lhe perguntara se era religioso. Nunca fora. Guardou o dinheiro no bolso. A conversa fez perceber que ele não temia nem o céu nem o inferno. Respirou fundo para sentir-se seguro. Era agradável que tivesse escolhido a sua data de aniversário, um dos poucos momentos em que se sentia bem, e que forneceu a ocasião para conseguir o dinheiro necessário, apesar do inconveniente de desapontar sua família.

Colocou a mão por fora do bolso, para sentir o volume que as notas faziam. Sentiu um arrepio na espinha. “Foda-se”, pensou. Após um tempo tudo voltaria como estava antes. Desde aquele dia no médico sentia como se tivesse sido ludibriado em toda sua vida. Mas ele não temia nem o céu nem o inferno, e podia ainda escolher.

Olhou para o relógio e percebeu que já passava da meia-noite.

Encontrou-se com o vendedor, uma figura muito simpática que sempre tinha notícias agradáveis para dar.

– Como estamos hoje, marquinhos?

– Tudo tranquilo. E aí, como vão as coisas por aqui?

– Tudo bem, tudo bem. Só tem que tomar cuidado que a polícia está passando aí, não sei se vai ter alguma coisa no morro. Tem que ficar esperto.

Marcos fez que sim com a cabeça. Sentia-se especialmente leve naquele momento. Deu-lhe o dinheiro e pegou a encomenda. Parou em um canto, entre dois homens com os olhares perdidos no horizonte. Eles pareciam murmurar qualquer coisa incompreensível.

Olhou para as doses e por um tempo respirou fundo e sentiu-se reflexivo. O garoto de rua de mais cedo veio à mente. Não o compreendia completamente, sentia-se mal por sua vida. Talvez devesse ter dado a ele um trocado, afinal. Ao inferno com a moral. Sentiu-se livre ao dizer isso. “Dois ou três meses”. Que significava aquilo, afinal? Injetou a primeira dose e pensou que o menino não controlava a morte, assim como ele mesmo. Mas agora vagava como alma penada. E lembrou que o garoto gemia, o prazer aumentava, e de repente era ele quem apanhava com o velho cano, e não sabia quem o batia, e os gemidos aumentavam, seu olhar trocava a visão para lá e para cá, o garoto no chão ensanguentado, os pensamentos se embaralhavam, “dois ou três meses”, gemidos, “tio, me dá um trocado”, “dois ou três meses”, e o cano desferido contra ele, a morte, a morte inevitável, seu corpo em espasmos, “nem o céu nem o inferno”, “dois ou três…”, “tio, me dá mais um mês”, mais algumas doses, gemidos, canos, era surrado por uma velha senhora, “tio, me dá dois ou três meses”, “dois…”, “pois bem, pegue o dinheiro para seu aniversário então”, “tem que ficar esperto”, “tio”, “tio”, será que mudava de visão? Será que queria viver? “Dois ou três tios, dois ou três espertos, dois ou três trocados, me dá um mês, me dá dois ou três meses”, sentia a veia dilatar-se em seu braço e não conseguia focar o olho em algum lugar, estava confuso, não sentia-se mais determinado a nada, “um, dois, três, quatro… tio, tio, esperto, ficar esperto, ficar um mês, dois”… as coisas confundiam-se na sua cabeça e de longe ouviu que seu celular tocava. Com algum esforço apertou o botão para receber a chamada, mas não conseguia mais concentrar os pensamentos para falar, deitou com o celular ao lado. “Parabéns pra você, nessa data querida…” era a voz que soava do telefone, e ele ouvia ao longe, reconhecendo seus pais. Sua voz não saía, “muitas felicidades…”, seus olhos fechavam “um ou dois, um ou dois, um ou dois”, pensou ouvir palmas, pensou ouvir os gemidos do garoto, pensou ouvir a voz do médico, ouviu, enfim, o silêncio.

– O que aconteceu? – perguntou o homem ao seu lado, ao ver o rapaz contorcendo-se em espasmos.

– Viajou demais. Dorme. – respondeu o do outro lado.

E os dois dormiram.

Antunes, 2015.

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JM 3003

Nas palavras em que me perco enfim
a vislumbro. Luz sempiterna arder
natural em si. Em derredor perfaço
ao seu brilho infinda revolução
traçada à esferográfica no sem-fim alvo
do caderno em minha mão.
Orbito distraído por fulgor longe
longe pontilhado. Não me afasto.
Quis o criador: para compor versos
________________[necessito de calor.
Circulo acompanhado – sou mundo pequeno –
por astros visíveis a olho nu.
Caminho resignado. É gravidade.
Inglória sorte de planetinha.
Reverbero à minha forma inefável chama.

Joaquim Miguel, 2016.

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Encontro

Bato na porta de leve
com os nós dos dedos
do outro lado te vejo
logo relembro meus medos

Sei que tens ansiedade
com um nó na garganta
tampouco eu me aguento
a tensão me ataranta

Ao vermos enlaçamos
um nó de nossas mãos
mas palavras não vêm
deixemos que se vão

E antes que o acaso
desate nossos nós
fugimos dali correndo
e o mundo, só nós

Antunes, 2013.

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Primavera

Agora atacando na música… segue a música Primavera, feita a partir de poema de Antunes, En la calle, musicada e cantada por TA Lopes. Espero que curtam!

Letra da música:

Algo se pasará
te juro
que algo se pasará

No ves la niebla gris?
O la acera llena
de sueños?

Tu no me crees
porque hoy todo es calmo
pero hasta mañana
en la calle

Te digo
que ya se levantarán
una primavera que llega
y no de flores, y no de flores

Algo se pasará
te juro
que algo se pasará

Como una pólvora
se propaga en el aire

Es así la calle

esperando por el fuego
si el pueblo cree
en sus fuerzas
nada les va a parar

Te digo
que ya se levantarán
una primavera que llega
y no de flores, y no de flores

Y ya no codicias
ya no egoísmo
ya no la miseria
es tiempo de cambiar

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Amor como ato de revolução

O nosso amor está amarrotado
como uma meia que descansa
no canto escuro de nossa
já tão gasta gaveta

Empoeirou-se com o uso
alargou-se no pé
e às vezes parece até
que já não dá pro gasto

Mas não.

Resistiremos ao destino
de ruir como mercadoria
obsolescência programada
dos nossos tempos voláteis

Trocá-lo? Jamais!
Se, sendo tão humano,
é sentimento capaz
de reinventar-se…

Sacudamos o uso
desbaratemos a fé
recuse-mo-nos a morrer
em um moedor de gente

Amaremos em eterna construção
em um diálogo de nós verdadeiro
e na nossa história será contada
que de dois fez-se um inteiro

Antunes, 2016.
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Imortal

Um frêmito ao ouvido treme
todo corpo. Responde num sibilo
a boca entreaberta. Encarnada
a pele, umedecida ao toque dos dedos
sem rumo ou pressa. Meus olhos
enternecidos confessam o gozo.

Instante suspenso:

Sequer a morte é temida.

Joaquim Miguel, setembro de 2016.

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Fugido na praça

A praça é outra.
Cá estou no instante usual,
fugido da fadigosa labuta,
escrevo sobre o mesmo caderno.
Me entrego ao constante banco e vivo
róseo crepúsculo. Aqui persiste
certo brilho encantado dos olhos.
Seguem carros apressados, farfalham folhas
à carícia do vento de inverno. Nos rostos
semblantes descansados da marcha cotidiana.
O ponteiro impróprio rememora o habitual
tempo em que a fuga finda. Hoje
não sei por que
a praça é outra.

Joaquim Miguel, agosto de 2016.

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