Travessia

Toda a rua reluz
interminável mundo
correndo pelas teias
falas habituais

É som que se reduz
mas reverbera absurdo
cruza pela soleira
devora minha paz

Canso-me do capuz
que uso e que mudo
quando o olhar tateia
as ruas distritais

A mente reproduz
os fracassos ao fundo
entorpece na veia
o que ainda satisfaz

Travessia traduz
oculto em um muro
é a fuga que freia
sentir-me incapaz

Silêncio, não há mais
nada que se receia
e contemplando tudo
concebo minha cruz

Antunes, 2018.

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Uma tarde no litoral

João estava sentado com a cabeça escondida nas mãos. Quem visse o jovem assim, na cadeira da delegacia, imaginaria que ele era o acusado, ainda mais que em cidade pequena a conversa logo espalha. Mas ainda não. João estava junto com outras duas pessoas, Marcelo Serra, seu patrão, e Enzo Serra, seu filho, esperando para serem ouvidos pela polícia. Lá fora alguns repórteres, que o caso havia sido de grande comoção.

A cidade litorânea, normalmente pequena, no verão era tomada por turistas devido aos atrativos naturais e belas praias. Banhavam-se nas cristalinas águas sob o sol quente, dias assim paradisíacos como fizera naquela tarde, quando a lancha em que estavam os três, seu patrão, o filho e ele, perdera o rumo ao sair da margem e passara por cima dos turistas que tomavam banho. Os gritos, a cena grotesca do corpo despedaçado de um dos turistas, cujo nome sequer sabia, ainda com vida mas já dilacerado e aleijado, boiando enquanto o sangue espalhava-se estimulando o interesse dos peixes, que se acumulavam entre os restos mortais agonizantes, não sairia de sua cabeça. Além deste, uma mulher havia morrido no caminho para o hospital e duas pessoas haviam ficado gravemente feridas.

Seu patrão havia ido primeiro conversar com a polícia, na parte interna da delegacia, e por isso estava ali, esperando. João culpava-se por ter deixado Enzo, o filho do patrão, dirigir. Na verdade, não havia propriamente deixado, pois este, embriagado pelas cervejas tomadas no dia na praia, aguardou um momento de distração quando estava preparando a lancha para sair e acelerou. Assim que ele percebeu, correu para tentar corrigir o erro, houve uma disputa e antes de retomar plenamente o controle o desastre já estava feito.

Era nisso que João pensava quando Marcelo Serra chamou o seu nome. Levantou o olho e encontrou o patrão logo a frente da divisa do balcão da polícia, com sua camisa polo branca de marca que delineava seu corpo gordo e os óculos escuros ainda dobrados na gola da camisa. Fez um gesto para que o seguisse e entrou pela delegacia. João seguiu-o, e pararam em uma sala isolada, só com os dois.

A sala tinha duas cadeiras e uma mesa de madeira, bastante simples, e podia ser vista pelo resto da delegacia, do lado de fora. Apesar da situação em que se encontravam, Marcelo não parecia preocupado quando iniciou a conversa:

– João, está tudo bem? – perguntou, como forma de iniciar a conversa, e como recebeu uma resposta positiva, continuou – Pois bem. Conversei com os policiais, eles começarão a nos ouvir. O que eu queria falar contigo é sobre como nós podemos passar essa informação, de maneira a que todos possam sair daqui da melhor forma possível.

– Sim patrão, eu também estou muito triste com o que aconteceu. – disse João, olhando para o semblante tranquilo de seu interlocutor e pensando que, talvez, ele fosse na verdade o único triste com o que aconteceu – Não sei como vamos…

– Sim, uma tragédia – cortou-o Marcelo. João não tentou seguir falando. – Veja, meu filho cometeu um erro. Isso é verdade, mas ele só tem 19 anos, uma vida toda pela frente, cometeu um erro normal de jovem, querendo fazer uma brincadeira depois que bebe, todo mundo já passou por isso, certo? – fez uma pausa mas, como João não fazia gesto de que diria nada, continuou – Pois bem, eu pensei que seria melhor para todos se, nesses relatos, nós tentássemos mostrar o quão acidental foi o ocorrido. Talvez, ao invés de contar todos os detalhes, poderíamos pensar em uma forma melhor. Você era o marinheiro então de toda forma seria culpado pelo que ocorreu – ele dizia isso professoralmente, como se quisesse que João seguisse um raciocínio complexo que ele tentava tornar fácil – a sua punição de qualquer forma será dura. Então se você simplesmente disser que escorregou, digamos, e acelerou o barco acidentalmente. É uma falha humana, pode acontecer.

Disse isso e parou, à espera de uma reação. João permanecia em silêncio.

– Você quer que eu assuma a culpa pela morte dos turistas? – disse o marinheiro, por fim.

– Veja, você vai ser culpado de qualquer forma – falava agora de forma mais dura – e eu estou tentando um acordo para beneficiar os dois. Se você se propuser a ajudar, eu garanto um bom advogado para você, o melhor que há. Você tem família, garoto?

João balançou a cabeça positivamente.

– Então, se chegarmos a um acordo você talvez fique um tempo preso, claro, até a poeira baixar, mas depois a gente te coloca para fora sem problema. E eu vou ajudar a sua família e você a se manterem enquanto isso durar, e é claro que também estou disposto a disponibilizar algum dinheiro para ajudar em outras coisas que você precise, para compensar por todo esse problema.

João não era estudado como Marcelo Serra, mas entendia o que ele queria dizer. Nunca pensara em lidar com algo assim em sua vida, sempre marcada pela tranquilidade dos mares e as dificuldades para manter o pão em casa para a família, formada pela sua mãe e outros dois irmãos, uma vida simples mas correta. Sabia o quanto o patrão era poderoso. João olhava-o, pensativo. Empunhava seu relógio de ouro, que consultava impacientemente esperando pela resposta. Enzo, seu filho, nada tinha de comum com os jovens que conhecia de sua casa e vizinhança. De pele bem cuidada, dançando com as palavras a cada sentença, semelhante ao pai. Sempre falando em tom de brincadeira, nunca havia o tratado mal – na verdade, nunca o tratara, propriamente, pois tinha-o como invisível, o que João preferia, para evitar qualquer problema. Já trabalhava para a família havia um ano, conduzindo a lancha sempre que necessário, além dos cuidados com a embarcação.

– E então rapaz? Como vai ser? – disse Marcelo, já sem mais vontade de esperar.

– E se a polícia descobrir que é mentira? – disse, por fim, João, com a única pergunta que lhe veio a cabeça para ocupar o tempo.

Marcelo deu uma risada de leve

– Bem, isso não é de se preocupar, só tínhamos nós como testemunhas, ninguém mais estava no barco, e eu vou acompanhar o caso, se houver algum imprevisto eu vou lidar da melhor forma possível. Não tem erro, é como eu disse: vai ser melhor para você também.

– E se eu disser que não? – disse, incerto.

– Não tem problema, claro! Eu entendo. Mas é evidente que eu não vou poder ajudar com as custas de advogado e esses outros gastos processuais para o seu caso. – caminhou pela sala, observando a janela que conectava com o lado de fora, e voltando, com um tom de ameaça dissimulada, continuou – Mas, como eu disse, a sua omissão como o marinheiro responsável também vai te colocar em maus lençóis, garoto.

João olhava também para o lado de fora. Sentia-se esgotado e cada vez mais sem opção. Ainda lembrava do corpo despedaçado no mar, agonizante.

Marcelo percebeu o estado de confusão de João e sacou um pedaço de papel e uma caneta do bolso.

– Aqui, eu vou escrever o valor que eu estou disposto a dar à sua família, e você olha para esse valor e pensa se vale a pena ou não. Mas você vai ter que responder agora, e se você disser que não, eu vou sair daqui e não falamos mais disso, ok?

João sentia como se todas as ações do patrão fossem encenadas, um grande teatro em que ele fazia parte inadvertidamente. Marcelo escreveu no papel e mostrou: era muito mais dinheiro do que havia conseguido juntar em toda a vida. Lembrou de sua mãe, que o esperava em casa, e para quem se dedicava tanto para retribuir todos os sacrifícios que fizera. Após o abandono do pai, indo para não se sabe onde, ela o havia sustentado e aos irmãos. Apesar das dificuldades, sempre esteve presente, com sua sabedoria e paciência para as travessuras dos três filhos. Ainda lembrava dela, soberana no sol escaldante da praia enquanto as crianças corriam por todo lado. Agora ele, o mais velho, já trabalhava e os outros dois começariam em breve. Olhou novamente o papel e respirou fundo.

– E você acha que lá fora vão me odiar muito? – perguntou, quase inocentemente.

– As pessoas esquecem garoto. Esquecem fácil, fácil – disse Marcelo, passando a mão no ombro de João e entendendo que se havia chegado a um acordo.

Olhando os repórteres e os curiosos ao sair, João sentia como se estivesse sonhando.

————————————-

Os jornais da pequena cidade estamparam em primeira página: “Marinheiro perde controle de lancha, mata duas pessoas e fere mais duas”. Na notícia, declarava que o dono da lancha estava presente na hora do acidente mas não daria nenhuma declaração. João não soubera disso, pois desde que saíra da delegacia, permitido aguardar em liberdade após o patrão pagar sua fiança, havia se enclausurado em casa. De toda forma, poucos vinham visitar, e sua mãe guardava-o destas interações, sabedora do efeito que teria no filho voltar a falar do que ocorreu. Naquela casa ninguém mais falava do assunto, nem ela nem os irmãos, mas mesmo o silêncio fazia pesar o ar, dando ao ambiente outrora alegre um permanente ar de melancolia.

Quando chegou em casa, ao sair da delegacia, ainda sem a fama repentina que teve logo após os depoimentos chegarem nas mãos da imprensa, sua mãe o esperava, olhos cheios de preocupação. Apenas abraçou-a e, entre os vacilos na voz das lágrimas que anunciavam chegada, adivinhando a avalanche que se avizinhava, só conseguiu dizer:

– Desculpe, mãe…

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Pela porta entreaberta

Tudo está vazio
a sala, o armário, gaveta
Tudo está vazio
meus olhos e teu coração
Tudo está vazio
o dia, tornado sarjeta
Tudo está vazio
o resto espalhado no chão
Tudo
____está

Antunes, 2018.

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Mental

– Pode vir.

Aquele corredor parecia meio assustador. As paredes cor de creme arrastando-se ao longo pareciam se fechar conforme acompanhava a moça à sua frente. No silêncio, cortado pelo som dos passos, divisava a silhueta da mulher caminhando na direção da luz da janela que fechava o corredor.

– Aqui, à esquerda – disse, com a cabeça indicando a sala.

Deitada em uma cama, uma mulher aparentando seus 20 e poucos anos repousava. Uma fresta de luz corria por uma pequena janela no alto do quarto, vindo a jorrar no rodapé da parede oposta à que ela dormia. Via-a através de uma pequena janela interna, que fazia a comunicação do quarto com o corredor.

– Posso falar com ela? – perguntou, incerto.

Nesse momento, virou o olhar pois saiu de um dos quartos ao lado um homem com jaleco branco e cara barbeada. No momento em que voltou a buscar a moça que o trouxe até ali, já não havia ninguém. “Provavelmente deve ter ido embora”, pensou, e não teve tempo de pensar mais muita coisa pois o homem de jaleco iniciou a conversa.

– Olá, como está?

– Estou bem. – respondeu. Olhou preocupado através da janela – e ela?

– Está bem. Precisou de alguns sedativos. Sou Márcio, o médico aqui. – e, vendo o semblante ainda preocupado de seu interlocutor, incluiu – Os sedativos são para que ela não fique muito nervosa.

– Mas é necessário?

– Absolutamente.

Parou um tempo para olhar ao redor. Aquele corredor, todo aquele ambiente parecia carregado por uma névoa que não conseguia ver, pesando em cada passo. O quarto era bastante simples, com as paredes brancas, a cama mais parecia uma maca, com seus lençóis azuis claros dobrados cuidadosamente. Ela parecia dormir. Será que sonhava com algo?

– O internato nestes casos é uma necessidade absoluta. Não se pode deixar para o azar.

– Sim, sim – respondeu, com um tom vago. – Posso entrar ali?

– Veja, há questões que você precisa saber. Esse momento do tratamento… é complicado – disse o médico, após hesitar – e portanto sua presença ali, não sabemos o que pode causar.

– Eu gostaria de entrar, mesmo considerando os riscos.

O homem de jaleco parou por um tempo, parecendo pensar e considerar.

– Bem, não há problema, desde que você entenda. – disse, afinal.

Folheou uns papéis, como se verificasse as últimas informações, e seguiu bruscamente na direção da porta.

– Bem, entre então. Mas não deve demorar mais de 10 minutos.

– Você precisa entrar comigo? – perguntou

– Não há problema – o médico respondeu, entendendo a necessidade de dar certo espaço – mas estarei observando aqui em frente e caso algo saia do normal irei intervir – e, mediante o aceno positivo de seu interlocutor, completou – veja, quero apenas dizer novamente que o estágio ainda é muito delicado e provavelmente, com os remédios, ela sequer responderá à sua presença.

– Tudo bem – disse o homem, precipitando-se para dentro da sala e fechando a porta por trás de si.

Olhando para ela, dormindo e parecendo gélida, apesar do calor que fazia naquele dia, sequer parecia a mesma pessoa que conhecera. Um frio passou pela sua espinha no pensamento de que talvez nunca mais fosse.

Alguns meses se passaram desde que a vira. “Como mudou”, pensou. A família havia decidido afastá-la logo no início dos delírios. Eram amigos havia anos e estavam então em um início de romance. A coincidência das datas entre o despertar da esquizofrenia e o início de seu relacionamento não foi ignorado pela mãe dela, que pediu que se afastasse.

Estava em pé ao lado dela. Passou os dedos pelos seus cabelos, não sabia se podia tocá-la e logo após esse gesto esperou a repreensão do médico lá fora, mas ela não veio. Talvez tivesse dito algo, mesmo que o fizesse possivelmente não seria possível ouvir, imerso como estava em seus próprios pensamentos.

Lembrava quando começaram a namorar, e como havia demorado a demonstrar seus sentimentos. A cara dela após o primeiro beijo, naquela noite estrelada, meio sem saber o que dizer, e os segundos de tensão até o sorriso no rosto dela e um novo beijo.

Olhando-a naquela cama, seus lábios pareciam sem cor. Talvez fosse a luz. Mas ainda conseguia ver o rosto dela com aquele sorriso. Quando se deu conta, percebeu que sorria de volta à imagem em seus pensamentos. Voltando a si, olhou de volta para a porta como forma de saber quanto tempo ainda tinha. O médico olhava para outro lado, conversando com alguém que não conseguia ver, o que lhe deu tranquilidade – provavelmente poderia ficar ainda por algum tempo.

De fato, nos últimos tempos ela não era mais a mesma. Por vezes, achava que a perseguiam na rua ou tinha certeza de coisas que não tinham acontecido. Com o tempo foi ficando cada vez mais isolada. Apesar de não conseguir entender o motivo desta mudança em sua namorada, recusava-se a acreditar no discurso de que ele tivesse contribuído para o que ocorrera. Logo ele, que se sentia tão pequeno em uma vida ordinária sustentada com muito esforço, como poderia despertar em alguém algo assim, grandioso e destruidor?

Queria ajudar mas, certo de que uma briga entre mãe e namorado não faria bem a ela, decidiu se afastar. O pai adotara uma postura conciliatória, mas não chegara a enfrentar-se com a decisão da mãe. No entanto, continuavam conversando e foi ele quem avisou sobre a internação e dera a chance de vê-la, pois sabe-se lá o que poderia ocorrer.

– Olá Jô – disse, como para cortar aquele pesado silêncio que pairava, e passou a mão por seus cabelos novamente. Seu nome era Joana. Assim, de tão perto, ainda parecia a mesma.

Os dedos dela moveram lentamente em resposta à sua voz. Ele juntou sua mão à dela. Os olhos abriram lentamente, e ele esboçou um sorriso, na esperança de ver aquele sorriso que imaginara minutos atrás. Mas os olhos que o encaravam estavam opacos.

Os lábios pareciam dizer alguma coisa, que eram impossíveis de decifrar. Com o tempo a voz foi, baixinha, tomando forma, e ele colocou seus ouvidos próximos da boca dela para melhor ouvir.

– Me tira… daqui – disse ela, com dificuldade. – me deixa sair? – disse depois, emendando um sorriso amarelo, em um tom quase infantil.

Ele se assustou e se desvencilhou dela. Irritada, ela gritou “eu quero sair!” e, como acordando de um transe ele foi tentar voltar a pegar-lhe a mão mas era tarde, Márcio, o médico, empurrou-o levemente para o lado e começou a injetar algo na sua veia, enquanto ela ia ficando mais nervosa, e repetiu mais uma vez “me tira daqui!”. Um enfermeiro apareceu e forçou as mãos dela para imobilizá-las, pois cada vez mais agitava seus braços. “Como apareceram tão rápido?”, pensou. “São eles! São eles!”, ela gritava e seus olhos por vezes pareciam voltar a si, para no momento seguinte desaparecer de novo naqueles globos opacos que tanto aterrorizavam. Ele se afastou mais dois passos, sem saber definir o que estava vendo, o corpo do médico e do enfermeiro tapando-lhe a vista, e já era o último momento quando ela gritou o nome dele, foi possível ouvir claramente, e ele foi correndo para ver-lhe o rosto, ainda em uma esperança improvável, mas ao conseguir encontrar um espaço entre os dois só o que viu era a sua Jô novamente desacordada, em um sono profundo.

– Vamos. – disse Márcio, ao ver que ele continuava parado, olhando para a mulher dormindo.

Demorou um tempo até que ele, consternado, se movesse.

– É normal se sentir impactado por uma cena dessas – disse o médico, sério e tentando aplicar à sua fala um tom compreensivo, na porta do quarto, após os dois e o enfermeiro saírem, trancando a porta novamente. Parecia adivinhar o que se passava na cabeça do rapaz – eu te disse que ainda era um momento complicado. Vai ser um processo até conseguirmos reduzir a medicação.

– Mas ela chamou pelo meu nome. – disse, ainda parecendo perdido em seus pensamentos.

– Sim, existem momentos de crise e outros melhores, talvez a sua presença possa ter estimulado uma agitação nela. De toda forma, a Joana tem suas memórias, mas não consegue distinguir o real da imaginação, esse é o problema.

Ele não respondeu. Seu olhar parecia sem direção, perdendo-se no horizonte.

– Olha, minha sugestão é que você vá para casa, tire uma boa noite de sono. Você se lembra como ela estava antes de entrar aqui, certo? Você quer que esse tipo de coisa que aconteceu continue acontecendo?

Não houve resposta, então o médico continuou.

– Continue conversando com os pais dela e se quiser pode ligar para cá. Talvez seja uma boa ideia você deixar com a gente por enquanto, e voltar daqui há algum tempo, certo?

Márcio conversava e ia guiando ele na direção da saída. Ele deixava-se levar. Havia tudo sido muito rápido, e andando assim sentia-se como se fosse também um enfermo. E ela? Será que seu pedido de ajuda era real? Despediu-se dele e da atendente e saiu.

Sentado em uma lanchonete próxima, não conseguia decidir sobre o que fazer. Pensava no terror que sentiu quando se afastou dela e como não conseguiu mais voltar a segurar sua mão. O médico fora convincente em explicar que isso fazia parte de um delírio. Por outro lado, a Joana, a sua Jô, não simplesmente pediria socorro sem mais nem menos. E ela chamou seu nome. Por que faria isso se ela estivesse imaginando?

As imagens do ocorrido no quarto voltaram a se repetir em sua cabeça, como um filme rodando sem parar. Como ela está? Será que poderia ter feito algo diferente naquele momento?

Pensou em voltar. Imaginava-se voltando e conversando com o médico, que lhe daria o mesmo sermão de antes, “olha rapaz eu te entendo, eu realmente te entendo, mas não há o que fazer, é a maneira dela voltar a si”. “Entupir de remédios… deve ter outra solução”, ele diria, e o médico responderia “Não há, e você está ficando insistente, vá lá que você não precise de remédios também!”. A noite chegaria em breve. Fechou os olhos e pensou na sua última visão dela, deitada. Tentou gravar em sua memória. Suspirou e seguiu para o ponto de ônibus, de volta para casa.

Ele vivia ainda com os pais, em uma casa bastante simples. Uma sala pequena, ocupada pelo sofá e televisão, dividia os cômodos. Uma janela ali trazia a brisa para acalmar as noites quentes. Seu pai passou por ele, no trajeto entre o sofá e a cozinha, e deu-lhe boa tarde. Ele não respondeu imediatamente, fazendo após um tempo um aceno de cabeça. Seguiu para o quarto.

Deitado em sua cama, olhando distraidamente o teto, tentou organizar o pensamento. Não era do tipo impulsivo, e por sua personalidade muitas vezes retardava decisões importantes, mas não dessa vez. Entraria em contato com a família de Joana? Possivelmente o ouviriam, talvez retirassem ela dali. Mas o que diria? E o que havia para dizer? Repensava, repassando o ocorrido mais cedo em sua mente – seria esta mais uma ilusão das que ela tinha em suas crises?

Em um gesto brusco levantou-se e ligou o computador que ficava no seu quarto, começando a digitar. Precisava escrever de maneira contundente, pois caso contrário de nada adiantaria para que tomassem uma atitude. Enviaria um correio eletrônico contando sua visita e dizendo que Joana pedira por ajuda, explicava no texto que ela queria sair de onde estava internada e que estava sofrendo. Que tinha sido sorte ter ido visitá-la no momento em que acordara pois permanecia sedada a maior parte do tempo. E que ela havia o reconhecido. E dito seu nome. Escrevera tudo de uma só vez. Pronto, estava ali um desabafo para os pais de Joana, com o que precisavam saber, que poderia livrá-la do que parecia ser um cruel destino. Enquanto relia seu pai o chamou, era hora da janta.

Sentado na mesa, que ficava na cozinha pois seus pais não gostavam de televisão nas refeições, estava envolto em seus pensamentos. “Está tudo bem, querido?”, perguntou sua mãe, vendo que seu filho tinha um olhar perdido. Ele apenas sorriu, baixando a cabeça após o gesto e mantendo o olhar no seu prato, enquanto o comia.

O jantar terminou e após ajudar a retirar os pratos, voltou a seu quarto e releu o texto. Mas não enviou. “Melhor dormir e amanhã ajeito os pormenores”, pensou, guardando no fundo de si a dúvida sobre o que vira e o que significava. Salvou o texto no seu computador, apagou a luz, deitou em sua cama e fechou os olhos.

A imagem da Jô em um cinema veio a sua mente. Uma memória antiga. Seus lábios se aproximavam e era o primeiro beijo que tiveram. Fechou os olhos, saboreando longamente o momento, e quando os abriu novamente ela estava como a vira naquele dia, o encarando com aqueles olhos opacos. Assustado, afastou o corpo. “Me tira daqui!”, a voz veio de algum lugar desconhecido, ele esfregou os olhos e sentiu um empurrão, quando voltou a abrir era o enfermeiro, e a cena de horas atrás, ele recuou alguns passo e acordou. Hora de trabalhar.

O dia passou normalmente, seu pensamento fugindo da lembrança do sonho daquela noite e do que o esperava quando voltasse para casa. Mas logo estava em seu quarto, o computador ligado e o texto na tela. Ainda estavam vivos o olhar, os gritos que a deixassem sair… o médico falando veio em sua mente. E se ela na verdade quisesse continuar, apesar das crises? E se foi só mais um delírio? Mas e se ela estivesse mesmo sofrendo? Estava ali, um clique. Sentia que a decisão era tão grande que não conseguia vê-la de conjunto, olhava-a pelas partes, tateava. Talvez os pais de Joana já tivessem conversado com ela, e isso nada mudaria, ou quem sabe aquele momento inesperado pelo médico não tenha se repetido outras vezes. Ela sairia para onde?

Sem saber exatamente o motivo, como se algo estranho a ele movesse seu corpo, cancelou o envio da mensagem. “Desculpe Jô” pensou, e apagou o texto do seu computador. Retirou o fio do computador da tomada, apagou a luz, deitou-se na cama e fechou os olhos. Após o filme no cinema, andavam de mãos dadas pela calçada, o silêncio da noite ressaltava o assovio do vento, uma chuva fraca começou a cair, refrescando a noite. Ao sentir as primeiras gotas olharam juntos para o céu e, entreolhando-se, sorriam felizes.

Antunes, 2018.

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Rotina educadora

O alarme toca, seis horas, tateio no escuro “só mais dez minutos”. Não sei o tempo corrido, o apito insistiu. Uma ducha rápida pra lavar o sono, não há tempo para o café, tomo quando chegar na escola. Nem mesmo o dia definiu-se ainda, incerto se nubla ou abre. Até o ponto de ônibus o caminho é ainda despertar, pessoas coçando os olhos, passos que sabem do próprio atraso, mas não conseguem mais velocidade, o trabalho aguarda. Crianças uniformizadas aparentam similar tensão, a escola aguarda. É realmente necessário nos levantarmos tão cedo? Qual corpo deve acordar antes de repousado? O ponto está cheio. Os ônibus se aproximam, pescoços e braços se esticam ansiosos pelo transporte.

“Bom dia” o motorista é o mesmo, responde minha saudação num gesto simples, ligeiro aceno com a cabeça, suas olheiras não deixam esconder as exigências que a noite anterior demandou. Com ele dirigindo não chego tarde. Quase todos no ponto sobem nessa linha, os bancos ainda vazios, gelados, pouco a pouco são ocupados, procuram assento solitário, economizam palavras. Os espaços são logo preenchidos, rostos conhecidos embarcam, companheiros de viagem. No trajeto alguns se distraem com a paisagem, olhares perdidos, outros, a maioria, empunham o celular e dedos já agitados desmentem o semblante sonolento. Eu os observo. O engarrafamento é sempre nessa junção, buzinas disparam e acompanham o apito dos guardas esforçados em fazer fluir os carros e ônibus amontoados, vencida essa barreira falta pouco. Sete horas.

A escola fica numa rua estreita, só um carro por vez, no pé do morro do Andaraí. Ainda está fechada. Na padaria a poucos passos vou atrás do café, empurrão para a jornada. “Hoje é só o cafezinho, sem o pão com manteiga”, e a sorridente balconista não demora. É uma casa de pintura branca e detalhes cinzas, emparedada entre construções parecidas, sem qualquer pista de que abriga uma escola. Da porta vê-se uma escada ascendente e sentado numa carteira logo após o último degrau está o inspetor, esbaforido, em suadouro, apelidado o Carcereiro. O primeiro aluno chegou, não é para minha aula. Independência do Brasil, Grandes Navegações, Escravidão, Revolução Russa, quem se anima com uma aula dessas logo de manhã? Aguardo na sala.

A primeira da turma chega, é a única dessa série e divide a sala com outros dois, de série e idade diferente. “Como foi o final de semana?”, não pôde ir na festinha com os amigos, a mãe, seguidora fervorosa de uma vertente pentecostal não permite que a menina saia. Chegam os outros dois. “Sim, podem dormir até a hora da nossa aula”. Preencho o quadro negro com os apontamentos e a menina copia automaticamente, “pode cair na prova sim”. Sento perto dela e tento levar a aula como uma conversa informal, aproximar os anos da Regência durante o Império do cotidiano dela é tarefa hercúlea. O que ela quer conhecer? O tédio é indisfarçável, mas desfeito quando o outro menino atira nela um pedaço de papel e pergunta sobre alguém. Isso a interessa. Segue uma cosquinha, deu o tempo, é hora da aula para os outros dois. “Claro, vá ao banheiro”. Ele chegou sem uniforme e o Carcereiro não iria liberar sua entrada, disse ser ele quem mandava, contou o menino que só entrou quando o proprietário da escola, também diretor, desautorizou o inspetor, esse era o motivo do atraso. A aula dois outros dois seguiu a mesma toada, para eles minha voz sem interrupção esquadrinhou a Crise de 1929. “Alguma dúvida?”, nenhuma. Nove horas.

Sentado em frente a mesa junto a porta da sala onde eu dera as primeiras aulas estava o diretor. Grisalho, olhos escondidos sob uma larga sobrancelha e a boca, miúda, não resistia as enormes bochechas como a de um buldogue, sorrir o faria levantar muito peso. Me cumprimenta mudo, sigo para a outra aula, essa turma fica numa sala subterrânea, sem janelas e com paredes de azulejo branco. Só um aluno me aguardava, deitado sobre os braços feitos de travesseiro. “Como você está, meu amigo?” é um pouco mais velho que os das primeiras turmas e de série mais avançada. Depois de se espreguiçar ele me entrega uma folha de papel. “E os outros?”, faltaram sem dar notícia. No papel ele fez o exercício que propus no encontro anterior: um diálogo entre um sujeitos de tempos distintos, um medievo e um iluminista. A criatividade das palavras chamou menos a atenção que o cuidado demonstrado em descrever os pontos de vista e apaziguar os sujeitos, “mas o que você pensa?”. O menino não gosta de opinar, evita conflitos e desagrados. Tornou-se esse o tema da aula, se colocar no mundo. Entre situações narradas e algumas risadas notamos que o relógio correu e era hora do recreio. Sugerir que se manifeste sobre suas convicções como uma prática de liberdade não combinava com a sala-masmorra onde estávamos. “Outro cafezinho e um pão…” com ovo, terminou a frase a mesma moça sorridente da padaria. Quisera levá-los a rua, conversar sob o céu agora claro e fazer disso aula, são História os desdobramentos que no tempo levam-nos, muitos de nós, a comportamentos passivos quando a existência exige posicionamento.

De volta na escola encontro com os outros professores, só revelam lamúrias. Esse aluno não quer nada, aquele é preguiçoso, são tão poucos. Para o diretor falta consideração com o investimento custoso dos pais. A mim sempre pareceu que os pais ignoram o que se passa nessa escola. Jamais fui questionado ou orientado quanto a uma vertente pedagógica, nenhum professor foi. Tomei o descaso como liberdade. Faltava apenas mais uma aula, onze horas.

É a turma dos mais novos. Essa sala tem janela, mas sempre fechada, muito barulho. São dois. As Capitanias Hereditárias foram conversadas como encenação. “Você é Dom Fulano, e você o Rei de Portugal”, eu sou o rei!, exclamou um dos meninos rindo do outro que retrucou dizendo preferir ser nobre, rei é muito chato. “Sim, tenho cinco pra ajudar o troco”, o carcereiro irrompeu pela sala para fazer o pagamento da minha diária. “Você acha que o rei lhe daria terras sem querer algo em troca?”. Viu como é melhor ser rei?, continuou o garoto, e o rei ainda fica com todas as garotas, concluiu triunfante. “Sim, eu já beijei uma garota”, respondi a pergunta feita entre risotas. Como era? É bom? Eu acho que nunca vou beijar alguém. Foi o que se seguiu, queriam conversar sobre garotas. Toca o telefone de um deles, passáramos dez minutos da aula, a mãe estava aflita com o filho que não chegou para o almoço. Turma liberada. Segui para o ponto de ônibus, estava só. Estiquei meu braço para o ônibus que vinha apressado. Boa tarde professor!, passou o garoto que não gostava de opinar, “Até amanhã”. Meio dia.

Joaquim Miguel, 2017.

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No silêncio

Chegas pela porta
bolsa caindo do ombro
olhar meio cansado
do dia de correrias

Admiro tua força
que mostras sempre
embalada no meio
de risos alegres

Amo-te, leito terno
onde deságua o rio
dos anseios correntes
que fluem em mim

Penso tudo isso
vejo-te e não falo
somem as palavras
por que emudeço?

Queria eu ser capaz
de belas declarações
que pudessem mostrar
o que guardo em mim

Que fossem conforto
nos dias agitados
e que fossem alento
para tuas tristezas

Estou eu perdido
em meus pensamentos
quando tu me chamas
já impaciente

“O controle!”
Sumiu. Onde está?
Procuro contigo
no sofá da sala

Sentamos e ajeitas
a cabeça em meu ombro
uma brisa pela janela.
Mais uma noite normal

Antunes, 2017.

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Instante

Ao peito assombrado surge gigante
a noite. Fantasmas desiludem
esperança acanhada feita aurora.
Agora descrença à magnífica sombra
protetora da pungente verdade: amor
é instante suspenso. Sol de mechas douradas
impossíveis, desvanece ao toque dos dedos
carinhosos, insistentes em acaricia-los.
Escorrego na infinita escuridão
desejoso de luz ia condenado
à nova quimera disfarçada.

Joaquim Miguel, 2016.

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Realista

Viver, padecer
sonhar no intervalo
ei-lo, nosso futuro está ali
e o céu está a quilômetros…

Antunes, 2017.

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Preguiça

Notei a janela, tantas vezes caminho livre para meus pensamentos, de jeito diferente. Precisamente em frente a ela, seu desenho emoldurava uma pintura viva, iluminando a parede esverdeada do quarto sonolento. As folhas da mangueira sacodiam-se ao sabor da brisa e fizeram desse movimento um convite para que apoiasse meus cotovelos no parapeito e mergulhasse.

De lá experimentei lenta e prazerosamente a preguiça que preenchia tudo. A tarde ia alta nesse sábado frio do outono no Rio de Janeiro. À minha esquerda a ruela da vila, feita ainda de paralelepípedos, era passagem livre para o assovio do vento. Vozes se esticavam distantes num ressoo cansado pelos edifícios estampados à direita, as pessoas se chamavam de longe, davam às goelas a missão impossível ao restante do corpo cumprir. Tudo harmonizado pelo inconstante farfalho das copas das árvores.

Lá na vila a lombeira era tamanha, absorvia, fazia sua própria forma, mesmo as alterações na imagem original do quadro. Quando um rapaz saiu de uma das casas a porta emitiu um ruído arranhado, agudíssimo, que acompanhou todo seu curso. Lamentava lhe obrigarem a se mover. O próprio rapaz trajava um moletom esgarçado, pontilhado de inúmeras lavagens e uma bermuda tão displicentemente escolhida, como se protestasse pela inevitável saída. Um cão, esticado ao chão da laje, farejou o movimento do seu amigo e questionou sua ausência em eloquentes e imóveis latidos. Na calha logo acima, invadida por folhas secas, um gato encolhido assistia ao acontecimento indiferente até esticar vagarosamente uma de suas patas, depois, desapressado, a outra, bocejar e começar seu banho.

Atrás de mim ecoou “Vamos?” e retornei pela janela-moldura absorto. Voltei ao quarto, nossos olhos se encontraram “Poderia passar a tarde inteira enroscada contigo nesse cobertor”. Era nosso trágico destino incorporar-nos ao tecido moroso da rua, nevoeiro sutil e frio, invencível por hoje.

Joaquim Miguel, 2017.

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Uma tarde em SP

Sentada ela vê
as cores reluzirem
naquela tarde fria
em são paulo

“Não garota,
sai daqui, não é
seu lugar”, diz um
vertido sobre seu corpo

Ela olha-o, reluz
sua face gotejando
barbas sujas misturando-se
com a fuligem

“Não é seu lugar”, repete
aumenta o brilho das cores
o casaco cinzento protege
o velho do frio

um homem corre pela rua
quase tromba com ela
não baixa os olhos para vê-la
nem ela o vê

perdida em pensamentos
opacos e diversos
sente-se finalmente bem
não sai dali.

muita gente junta, ela encosta
a cabeça em um banco, um casal
bastante magro carrega um colchão
com um caixote de madeira em cima

outro passa com seu carrinho
e com seu fiel cachorro
caminha molemente
“na outra calçada eles têm pressa”

ele cumprimenta o velho de barba
enquanto se cobre com cobertor
para aplacar o frio
da tarde em são paulo

a rua é suja, tremula do outro lado
uma bandeira velha do brasil
em algum prédio público. Já ali
fede a mijo

Estampido e neblina se espalha
é a polícia, dizem, e o ar acaba
respirar é insuportável, ela levanta
tremula para andar, tal qual a bandeira

outra bomba, mais gás, e ela corre
“seu lugar não é aqui”, diz o velho
enquanto corre por ela. Ou será outro?
Para onde corre?

A confusão não lhe deixa pensar
na terceira explosão sem destino
na terceira explosão correm,
indesejáveis, espalham-se

sozinha, não sabe onde ir
passa o homem com o carrinho
e com seu cachorro. Ela o segue.
Há de haver outro eldorado.

Antunes, 2017.

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