Sobre saudades

No céu a névoa some
com o brilho das estrelas
pergunto-me se você
também vê esse cenário

compartilho contigo
uma estrela esmaecida
que em meu pensamento
você igualmente olha

em uma comunhão muda
verdadeira ou imaginada
declaro a falta sentida
por tua ausência aqui

e de teus doces braços
onde os sonhos tem morada
tuas carícias que me faltam
na distância em que professo

parece tudo mais escuro
sem teu jeito doce
de iluminar a noite
e de espantar o breu

a nuvem passa pela estrela
deixando-a em céu aberto
ela brilha agora mais forte
credito isto a um sinal teu

e com um sorriso solto
de quem sabe-se bobo
deito a cabeça no travesseiro
e sonho tranquilo

Antunes, 2019.

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A um passo

Eu, caminho inseguro
em pensamentos tristes
devaneios que antagonizam
minhas poucas certezas

Eu, meu próprio inimigo
em relutâncias sem fim
um cárcere que criei
e hoje me constrange

Eu, um estampido
pronto a eclodir
um novo vulcao
irrompe em chamas

Eu, fuga de novo
isolado em meu canto
recolho o que posso
para me reconstruir

Antunes, 2019.

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Réquiem V

O amor me consumiu
como o fogo consome
um galho na fogueira

Já sem fogo
sobrou-me corpo
consumido pela chama

O amor me esmagou
serpente ao atacar
uma presa distraída

Quando se foi
sobrou-me solto
sem saber de mim

O amor ocupou o sentido
de levantar pela manhã
para novas jornadas

Quando já sem sentido
em sussurros velados
tramou meu epílogo

E do que vivi
sobraram as lágrimas
visitantes diárias
na esquina das horas

sobrou o desejo
de entre dias vazios
escapar de mim

sobrou a escuridão
das noites insones

O amor exauriu-me
____até não mais poder sobrar

Antunes, 2019.

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Joaninha

Tua pele ressoa o toque
de minhas mãos a te acariciar
dormes despreocupada
como se não tivesses que voltar

às crises e outros problemas
ao mundo que nos atravessa
teu sono tudo desafia
com sua leveza sem pressa

e eu sempre com a vida
tão tenso que me farto
admiro-te assim tranquila
no silêncio daquele quarto

Pernas entrelaçadas na coberta
ao teu cheiro mistura-se o meu
teu rosto invade meu braço
em alguma altura do breu

abres os olhos e sorri
como adivinhando os devaneios
e eu, ao sorrir de volta,
já nem lembro de meus anseios!

Antunes, 2019.

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Aos que se foram

Aqueles que se foram
deixam vazio no peito
lamentos que ecoam
onde a saudade fez leito

Mas hão de ser semente
crescer no coração
fé de seguir em frente
que não seja em vão

O que temos na memória
lembrança de cada luta
compartilhamos a história
o legado nos escuta

Em mim eu os levo ainda
carregados como estandarte
como lição que não finda
se minha estrada se parte

Outros virão depois de nós
ciclo que se desafia
não estaremos a sós
na história que porfia

Antunes, 2019.

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Graciosa

Hoje quando te fores
tu, que agora em meus braços
repousa-te em amores
que suponho em nossos laços

Sentirei sua falta
um vazio que creio
ser vontade que exalta
que também eu receio

Calo-me no adeus
que dás afetuosa
caminhas entre os teus
em curva sinuosa

Quero-te em liberdade
mas quando tu te vais
transborda a saudade
busco-te em sinais

Eu sofro mas te deixo
espero em segredo
que voltes quando queixo
tua ausência que é meu medo

Até o dia que fores
achar no mundo enfim
teu desejo em ardores
já bem longe de mim

Antunes, 2019.

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Ao partir

O teu olhar hesitante
busca sonhos que esmaecem
como se de alguma forma
impedindo sua partida

E nós repassando os erros
perdidos sem esperança
buscando em vão no passado
resposta que não vem

Em silêncio, eu encontro
tua voz tonitruante
toco-te como se o tato
fosse capaz de responder

Pela porta o caminho
pelo mundo a proposta
e nosso olhar já decide
o que precisa escolher

Ao partir
levas contigo uma parte
de tanto que nós já fomos
tudo que compartilhamos

E nossa vida
perdendo-se um pouco
encontra novas forças
para poder recomeçar

Antunes, 2019.

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Disparo

Com seu sorriso vão
o coronel engomado
promete redenção
manipulando o Estado

segue o mesmo padrão
quando um cara armado
fala que a solução
é o ódio no atacado

É o mesmo patrão
para ambos os lados
que para manutenção
de privilegiado

esconde informação
te quer manipulado
pois na mira estão
do cano disparado

quem sofre opressão
quem é abusado
é o trabalhador
é o desempregado

que constrói a nação
com o suor trabalhado
não com corrupção
como o deputado

não mora em mansão
pra viver isolado
e nessa confusão
seu caminho trilhado

é a mobilização
para ter restaurado
o direito ao pão
e a ser respeitado

por isso eu digo não
abandonemos o fardo
de ser mais um peão
desse jogo viciado

com a nossa união
derrubar o reinado
e já sem acordão
sem o ódio espalhado

juntos em comunhão
novo mundo esperado
será em nossa mão
que ele será gestado

Antunes, 2018.

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Uma tarde em SP

Sentada ela vê
as cores reluzirem
naquela tarde fria
em São Paulo

“Não garota,
sai daqui, não é
seu lugar”, diz um
vertido sobre seu corpo

Ela olha-o, reluz
sua face gotejando
barbas sujas misturando-se
com a fuligem

“Não é seu lugar”, repete
aumenta o brilho das cores
o casaco cinzento protege
o velho do frio

Um homem corre pela rua
quase tromba com ela
não baixa os olhos para vê-la
nem ela o vê

Perdida em pensamentos
opacos e diversos
sente-se finalmente bem
não sai dali.

Muita gente junta, ela encosta
a cabeça em um banco, um casal
bastante magro carrega um colchão
com um caixote de madeira em cima

Outro passa com seu carrinho
e com seu fiel cachorro
caminha molemente
“na outra calçada eles têm pressa”

Ele cumprimenta o velho de barba
enquanto se cobre com cobertor
para aplacar o frio
da tarde em São Paulo

A rua é suja, tremula do outro lado
uma bandeira velha do Brasil
em algum prédio público. Já ali
fede a mijo

Estampido e neblina se espalha
é a polícia, dizem, e o ar acaba
respirar é insuportável, ela levanta
tremula para andar, tal qual a bandeira

Outra bomba, mais gás, e ela corre
“seu lugar não é aqui”, diz o velho
enquanto corre por ela. Ou será outro?
Para onde corre?

A confusão não lhe deixa pensar
na terceira explosão sem destino
na terceira explosão correm,
indesejáveis, espalham-se

Sozinha, não sabe onde ir
passa o homem com o carrinho
e com seu cachorro. Ela o segue.
Há de haver outro Eldorado.

Antunes, 2017.


Reincluindo o poema…

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Reservado

A manhã já começava a arder quando cheguei a Angra dos Reis. Os raios solares batiam na janela do ônibus, aumentando a luminosidade até o ponto em que, após alguns minutos preso entre o sonho e a realidade, vi-me impossibilitado de continuar na primeira opção. Esfreguei os olhos com minha mão incerta das direções que seguia, e olhei ao meu lado para o senhor com quem eu dividia assento, que ainda dormia. Era uma viagem pequena mas cansativa a que me trazia da cidade do Rio de Janeiro para iniciar a semana de trabalho. Trabalhando no setor administrativo em uma pequena rede de farmácias da região de Angra, emprego conseguido com dificuldade em uma época de poucas oportunidades, me via obrigado a ir e voltar periodicamente de uma cidade para a outra como forma de passar os fins de semana com minha esposa e filhos, que ainda tardariam a mudar.

Com a chegada do ônibus na rodoviária, esperei que o senhor ao meu lado acordasse, e que o ônibus lentamente esvaziasse para que eu pudesse pegar a mochila onde guardava meus pertences e também sair, direto para o escritório. Cruzando a praia do Anil, cheguei ao centro da cidade. No trajeto até o trabalho havia pouco que lembrasse os paradisíacos resorts que se esperaria em uma cidade turística: olhando para aquela massa de pessoas se movendo preguiçosamente aqui e acolá na manhã de segunda-feira, fugindo do sol nos exíguos toldos das lojas que se estendiam pela Rua do Comércio, não havia o grande charme que há nos comerciais. Passar pelas ruas entre tantas cabeças, pelo contrário, me causava certa ânsia, nervosismo de driblar aquele grupo que se apertava entre calçadas pequenas e carros que transitavam pela rua de ladrilhos.

Chegando no escritório, comecei as pequenas tarefas do dia. Devo admitir que meu trabalho não é o mais animador: verificar os custos das farmácias da rede, sugerir melhorias na lucratividade, fazer o balanço são algumas das tarefas que tomam o meu dia. Além de enfadonha, minha função carrega consigo certa desvalia moral de incentivar a maximização de dinheiro proveniente, em última instância, da doença das pessoas. Por outro lado, receber um salário evita a minha doença e, de toda forma, o mundo inteiro parece andar mal. Olhando pela janela, posso ver um morador de rua sentado em um trecho um pouco mais largo da calçada, em frente a uma agência bancária. A pobreza me tomou de surpresa quando cheguei a essa cidade: sempre imaginei que os pedintes fossem privilégio das capitais. Quem sabe ele não é um dos clientes da farmácia. Fecho a persiana e me viro para o computador.

No escritório são poucas pessoas. Faço algumas previsões financeiras e converso sobre qualquer assunto com meus colegas de trabalho, bebendo um café para segurar o cansaço da viagem. Logo vai ser hora do almoço, e o sol já se foi, dando lugar a uma chuva fina e rala. Penso que o bom das constantes mudanças de tempo é que estas podem sempre se tornar objeto de conversa, e quando almoçamos isso de fato torna mais fácil o diálogo, sempre voando a esmo entre as mais diversas amenidades.

Na volta o sono começa a ficar forte, e agradeço aos céus quando o relógio me permite sair. Como tenho ficado temporariamente na cidade, me contento em reservar um quarto de hotel enquanto não consigo achar um local para alugar a um preço razoável. O hotel em que me hospedo é próximo da rodoviária, não é muito para andar mas com o cansaço do dia de trabalho convém pegar algum transporte para chegar. Faço o percurso a que já estou acostumado até o ponto de táxi, passando novamente pelas pessoas em marcha, agora voltando para suas casas ou comprando algo nas lojas, e pelo pedinte que havia observado naquele dia de manhã. Ele me pede um troco. Uma pena, estou sem moedas.

Logo chego na entrada do hotel. Passando pela porta, vislumbro o salão iluminado por uma luz fria, que destaca alguns sofás e a recepção. Faço um gesto de saudação com os dois recepcionistas por trás do balcão de mármore, que me saúdam com cortesia e pedem meus documentos. Após checar no computador, informam-me que infelizmente minha reserva não consta no sistema. “Como pode ser? Mas eu sempre fico aqui!”, disse, surpreso pela situação – afinal, já me hospedava ali há algumas semanas, e não havia passado por isso antes. Pensei que talvez uma boa camaradagem com um cliente usual pudesse ajudar a encontrar um quarto. “Desculpe senhor, todos os locais estão ocupados. É realmente necessário reservar com antecedência”. Percebi que eles não me diferenciariam de um cacto se este pudesse se mover e dar boa noite, quanto mais me reconhecer como um cliente usual. Preocupado, perguntei se ele conhecia outro local em que eu pudesse passar a noite, e ele me indicou que seguisse a rua no sentido da Rodovia Rio-Santos, virando para a direita mais à frente e chegaria em outro hotel. Com essa orientação em mente, peguei minhas coisas e parti, não sem antes receber um cortês aceno de despedida do recepcionista no meu caminho até a porta.

Caminhar pela avenida Caravelas Toscano de Brito, uma das grandes ruas de Angra, guarda ainda uma certa calma, dependendo da hora em que se passa. Respirando o ar da noite, meu caminhar era pesado, carregando com cansaço toda aquela constelação de estrelas, a lua, o vento e tudo o que pesava sobre minha cabeça. Cheguei ao fim de um tempo no hotel. Era de maior qualidade, certamente um preço mais caro. Já havia visto as acomodações passando por ali, o fundo dava para uma pequena baía e nos arredores a disparidade entre o luxo turístico e a dura realidade da maioria dos moradores da cidade se fazia presente. Entrei pelo lobby e o recepcionista, localizado do outro lado de um balcão de madeira impecavelmente envernizada, pediu meus documentos. Dei-lhe e tentei explicar meu caso, eu não tinha reserva mas… não consegui terminar a frase e fui notificado de que não havia quartos disponíveis, pois todos estavam ocupados ou reservados. Que azar! Estranhei e perguntei se estava havendo algum evento na cidade. “Senhor, não sei informar, mas é sempre recomendável que se faça a reserva com antecedência. Se você quiser, podemos reservar para a semana que vem”. Bem, isso não adiantava de muita coisa. Respirei fundo e perguntei se conhecia outro hotel: isso ele também não sabia informar, mas ofereceu um táxi. Aceitei e, quando chegou o veículo, pedi que fosse a algum hotel nas redondezas que ainda pudesse ter vagas.

Não se imaginaria que fosse tão difícil dormir em uma noite de segunda-feira Mas o hotel seguinte estava lotado, e o outro, e o outro depois desse. “É, aqui é difícil mesmo, a cidade tem os turistas, por isso é necessário reservar antes”, disse ele. “Sim, é que o hotel perdeu minha reserva”, tentei explicar. “Mas é bom ligar antes para reservar mesmo assim”, foi a resposta dele, o que me fez perceber que ele provavelmente não se importava muito com o que eu dizia. A conversa fazia-se assim, para ocupar o espaço do tempo em que rodávamos pelas intermináveis ruas. Seus olhos cada vez se perdiam mais, o que me dava a impressão de que ele mesmo já não tinha plena ideia de onde estava indo. Após um tempo encontramos mais um hotel, para receber a mesma notícia: todas as acomodações estavam ocupadas ou reservadas. E nada que eu pedisse ou argumentasse demovia os recepcionistas da ideia de que não poderiam encontrar um quarto que estivesse livre.

O que poderia fazer? Que estranho desígnio moldava meus passos neste dia? A noite ia ficando mais fria, o cansaço parecia pesar os movimentos e, ao cabo de um tempo, parecia pesar também os pensamentos. Já desgastado com a procura em vão e preocupado com a conta crescente no taxímetro, pedi que o motorista me levasse de volta à rodoviária. Ali poderia sentar um pouco sozinho, quem sabe ter alguma ideia diferente. Ele deixou-me, não sem antes solicitamente dar o seu número caso eu precisasse de mais ajuda e lembrar novamente que “nessas coisas de estadia bom mesmo é dar uma ligada antes para garantir que tem lugar”, enquanto dava partida no carro para ir embora.

Naquela rodoviária bastante modesta, eu já me sentia mais familiarizado, ao menos. Sentar-se, no entanto, não parecia possível: as pessoas estavam esperando a saída dos ônibus e as cadeiras onde eu poderia sentar estavam todas ocupadas. Sem querer mais ficar em pé, sentei no chão e apoiei minhas costas em uma parede, respirando fundo e repassando o meu dia em mente. Pensei na viagem, pensei no trabalho, nas voltas pela cidade. Olhei para o relógio, eram quase nove e meia da noite. Lembrei da minha família, a essa hora eles estavam em casa, provavelmente vendo televisão. Será que sentiam falta de mim? Será que minha esposa se preocuparia de eu não ter ligado até agora? Enviei uma mensagem de texto dizendo que já estava no hotel e estava tudo bem, para que ela não ficasse preocupada. Estava assim, pensando, pensando, e de repente senti uma pancada na costela. “Vamos, acorde!”, disse o segurança da rodoviária. “Não pode dormir na rodoviária”. Levantei a cabeça ainda perdido, e percebi que havia caído no sono. Levantei-me meio desconcertado, sentindo que todos no local olhavam para mim. Olhei o relógio, eram dez da noite.

Resolvi então dar uma caminhada, para acordar e ver se conseguia pensar em algo. Talvez se procurasse mais, pelas cidades vizinhas, e depois voltar… procurei pelo telefone do taxista e liguei, mas o número dava ocupado. Liguei de novo, ocupado outra vez. De toda forma provavelmente não seria uma boa ideia. Caminhando pela rua, vi-me em frente ao primeiro hotel. Quem sabe eles não me deixariam pelo menos descansar em algum local qualquer só hoje, e amanhã achava um local para dormir no resto da semana? “Infelizmente senhor, as regras da casa proíbem esse tipo de coisa. Não podemos abrigar pessoas fora dos quartos. Hoje não temos acomodações, é bom sempre reservar com antecedência.”, disse o recepcionista, sempre cortês. Será o mesmo recepcionista? Olhei para o relógio. Dez e meia, meia hora tinha se passado somente. Cansado e antevendo a tarefa impossível que seria persuadir o recepcionista, voltei para as ruas.

Aquela última conversa só acentuava o absurdo de minha situação. Resolvi que voltaria para o Rio de Janeiro. Explicaria ao meu chefe essa situação e ele haveria de compreender; e se não entendesse, que me demitisse – afinal, qualquer coisa seria melhor do que esse caminhar para lá e para cá sem fim. Voltei novamente para a rodoviária, escapei como pude dos olhares rudes dos seguranças e pedi à recepcionista um bilhete para o Rio de Janeiro. “Senhor, há somente um ônibus saindo ainda essa noite para o Rio e ele já está lotado. Desculpe, mas o senhor terá que comprar para outro dia”, foi a resposta da moça do outro lado do balcão. Isso é impossível, pensei. Tentando encontrar alguma calma sentei em uma cadeira vazia da rodoviária para pensar. “Com licença, o senhor vai embarcar em algum ônibus?” – perguntou o segurança, com cara de poucos amigos – “Rodoviária não é local para se dormir”, disse sem me dar tempo para responder sua pergunta. Vi que alguns funcionários olhavam na nossa direção e me senti envergonhado. Sentindo-me sem opção, coloquei a mochila nas costas com desânimo e saí da rodoviária.

De novo na rua, sentindo que ela diminuía ao meu redor e me apertava, resolvi andar sem direção. O ar, que outrora parecia fonte de calma, agora só aumentava o meu sentimento de frustração. Caminhando uma esquina aqui, outra ali, deparei-me subitamente com o morador de rua que havia visto mais cedo. Estava de novo perto do trabalho sem ter reparado. Olhei o relógio. Onze e dez. Ele dormia. Já me sentindo desnorteado, meus pensamentos confusos fazendo agir por instinto, sentei e encostei-me na parede da agência bancária, ao seu lado. Não seria muito tempo até a manhã vir trazer algo de diferente, bastavam só alguns minutos…

Acordei com um empurrão que por pouco não fez minha cabeça chocar-se contra a parede que separava a agência do estabelecimento seguinte. Assustado, enquanto ainda tentava me lembrar onde estava, senti uma pressão puxando minha mochila. Instintivamente puxei de volta e aos poucos minha lucidez foi voltando, para ver o morador de rua com os olhos arregalados, uma aparência doentia e puxando minha mochila, ao mesmo tempo que gritava “Aqui é meu lugar! Meu lugar!”. Levantei-me de um salto sem largar minha mochila, e assim que consegui puxá-la de suas mãos corri sem olhar para trás, só parando quando o absoluto silêncio da rua me dava certeza de que ele não me seguia. Olhei para o relógio. Eram quase duas da manhã.

A corrida me levou a uma praça com grama verde, em um terreno inclinado que ia dar em uma imponente igreja iluminada. Meu olho pesava, minha perna doía e passando a mão pelo rosto senti minha fronte úmida pelo suor da corrida. Sentei por um tempo ali, observando os carros passarem, desabotoando minha camisa para deixar a noite fria invadir o calor que eu sentia. Respirei fundo e fiz um esforço para tentar manter-me acordado até de manhã, em que seria mais fácil tentar resolver as coisas. No entanto, acordei rolando pela grama, enquanto uma mão me levantava pela gola. “Levanta que a praça não é lugar para vagabundo dormir!”. Olhei para cima e vi a cara de um policial, se avermelhando e escurecendo frente à iluminação propiciada pela sirene do carro. Consegui com esforço me desvencilhar das mãos que me puxavam, disse que eu era trabalhador, amanhã iria para o trabalho e que não tinha para onde ir. Ele respondeu que isso era a conversa de todo vagabundo, e me empurrou para a viatura. Percebi que tinha um outro policial olhando à distância. Desanimado, pensei que talvez nem eu acreditasse no que estava dizendo se não fosse eu a estar nessa situação. Quando estava já para entrar na viatura de polícia ele me deu um último empurrão, dizendo que ali era espaço público, não era lugar de gente como eu.

Deitado em uma pequena prisão, sob ameaças dos policiais, fitava o teto imóvel e a parede descascada, viajando os olhos de um para outro lugar. Mas não foi uma lágrima que escorreu, nem rendi-me ao desespero. Pelo contrário, um sorriso desenhou-se no meu rosto em uma felicidade inesperada até para mim e, naquele lugar apertado, guardado para mim, virei o rosto para o lado, fechei os olhos e flutuei pelas largas asas dos sonhos bons.

Antunes, 2015.


Texto reincluído com alguns poucos ajustes…

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