Preguiça

Notei a janela, tantas vezes caminho livre para meus pensamentos, de jeito diferente. Precisamente em frente a ela, seu desenho emoldurava uma pintura viva, iluminando a parede esverdeada do quarto sonolento. As folhas da mangueira sacodiam-se ao sabor da brisa e fizeram desse movimento um convite para que apoiasse meus cotovelos no parapeito e mergulhasse.

De lá experimentei lenta e prazerosamente a preguiça que preenchia tudo. A tarde ia alta nesse sábado frio do outono no Rio de Janeiro. À minha esquerda a ruela da vila, feita ainda de paralelepípedos, era passagem livre para o assovio do vento. Vozes se esticavam distantes num ressoo cansado pelos edifícios estampados à direita, as pessoas se chamavam de longe, davam às goelas a missão impossível ao restante do corpo cumprir. Tudo harmonizado pelo inconstante farfalho das copas das árvores.

Lá na vila a lombeira era tamanha, absorvia, fazia sua própria forma, mesmo as alterações na imagem original do quadro. Quando um rapaz saiu de uma das casas a porta emitiu um ruído arranhado, agudíssimo, que acompanhou todo seu curso. Lamentava lhe obrigarem a se mover. O próprio rapaz trajava um moletom esgarçado, pontilhado de inúmeras lavagens e uma bermuda tão displicentemente escolhida, como se protestasse pela inevitável saída. Um cão, esticado ao chão da laje, farejou o movimento do seu amigo e questionou sua ausência em eloquentes e imóveis latidos. Na calha logo acima, invadida por folhas secas, um gato encolhido assistia ao acontecimento indiferente até esticar vagarosamente uma de suas patas, depois, desapressado, a outra, bocejar e começar seu banho.

Atrás de mim ecoou “Vamos?” e retornei pela janela-moldura absorto. Voltei ao quarto, nossos olhos se encontraram “Poderia passar a tarde inteira enroscada contigo nesse cobertor”. Era nosso trágico destino incorporar-nos ao tecido moroso da rua, nevoeiro sutil e frio, invencível por hoje.

Joaquim Miguel, 2017.

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Uma tarde em SP

Sentada ela vê
as cores reluzirem
naquela tarde fria
em são paulo

“Não garota,
sai daqui, não é
seu lugar”, diz um
vertido sobre seu corpo

Ela olha-o, reluz
sua face gotejando
barbas sujas misturando-se
com a fuligem

“Não é seu lugar”, repete
aumenta o brilho das cores
o casaco cinzento protege
o velho do frio

um homem corre pela rua
quase tromba com ela
não baixa os olhos para vê-la
nem ela o vê

perdida em pensamentos
opacos e diversos
sente-se finalmente bem
não sai dali.

muita gente junta, ela encosta
a cabeça em um banco, um casal
bastante magro carrega um colchão
com um caixote de madeira em cima

outro passa com seu carrinho
e com seu fiel cachorro
caminha molemente
“na outra calçada eles têm pressa”

ele cumprimenta o velho de barba
enquanto se cobre com cobertor
para aplacar o frio
da tarde em são paulo

a rua é suja, tremula do outro lado
uma bandeira velha do brasil
em algum prédio público. Já ali
fede a mijo

Estampido e neblina se espalha
é a polícia, dizem, e o ar acaba
respirar é insuportável, ela levanta
tremula para andar, tal qual a bandeira

outra bomba, mais gás, e ela corre
“seu lugar não é aqui”, diz o velho
enquanto corre por ela. Ou será outro?
Para onde corre?

A confusão não lhe deixa pensar
na terceira explosão sem destino
na terceira explosão correm,
indesejáveis, espalham-se

sozinha, não sabe onde ir
passa o homem com o carrinho
e com seu cachorro. Ela o segue.
Há de haver outro eldorado.

Antunes, 2017.

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Experimentos #1

Um som, uma viagem, uma coisa boba, um experimento, de Talopes.

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Flores

É claro meu amigo
que as rosas são importantes
e tudo que é bonito na vida
e os amores arrebatadores

Mas é que vivemos em tempos
de sentimentos muito extremos
E a beleza das folhas ao vento
já pouco nos pode dialogar

Não lhe desejo menosprezo
mas após bucólicos versos
como ver homens dormindo
nas calçadas de frio chão?

Trabalhadores sem emprego
pessoas sem ter o que comer
nossos direitos subtraídos
e a desesperança no futuro

A poesia pulsa e é urgente
nos tempos que vivemos hoje
mas não podemos fazê-la
na meia luz de nosso quarto

Nesses tempos tão desastrados
talvez o poema corriqueiro
precise ousar e se encarnar
da maior das grandiosidades

Meu amigo, as ruas estão aqui
entraram quebrando as janelas
vamos ocupá-la em nossos versos
fazer um mundo que seja, de fato,
_______________________flores

Antunes, 2017.

Editado em 31/07

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Sobrevida

Caminho pelo chão distraído
por vezes tropeço e caio
noutras detém-me uma flor.
Alterno assim sorriso e dor.

Ao papel não escapa o destino
preenchido em tinta, sangue e amor.
Leia-me nesses versos desarmado.
Vida é árdua, exige fantasia.

Quem sou? Apareço cantando
pureza perseguida e paixão
esquecida no sem tempo dia-a-dia,
vislumbrada, trouxe-mouxe, exaurida.

Sem jamais trair essência,
eterna casa de esperança, vaga
insistente. Aos olhos se revela
colorida contra desencanto cinza.

Joaquim Miguel, 2017.

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Recanto

Essa casa na ladeira
é mesmo encantada.
Mal pus o feijão no fogo,
cheirinho nem se espalhara,
quando notei na janela
imóvel no ar, atento beija-flor.
Breve encontro sucedeu,
seu olhar com o meu, então se foi,
boca sedenta de doce, atinou a minha
já salivante. A panela no fogão,
nesse instante fumegara.

Joaquim Miguel, 2017.

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O ocaso dos poderosos

O rei se cerca da corte,
ignora o murmurinho das ruas
como informes desimportantes
que recebe em seu castelo.

Perdido em suas pequenas intrigas,
preocupado com seu vinho francês,
não vê o arraste a se consumar,
a pólvora a explodir em sua barba.

Quando sente o cheiro da plebe
desespera-se, ordena execuções,
imprime decretos sem fim,
acusa conspirações pelas esquinas.

Não entende a onda que cresce
e invade por todos os lados
daqueles que trazem a conta
por tantos anos de exploração.

Essa onda que cobrirá tudo
com sua força estrondosa,
inundará o povoado e de onde
não mais sobrarão reis

Antunes, 2017.

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Lições de Brasília

Obrigado Temer por me ajudar
a conhecer todos os benefícios
hidratantes do leite de magnésia
e respiratórios do vinagre!

Antunes, 2017.

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Conversa de Bar

Aquela mochila incomodava Carlos. Já bastava que tivesse que trabalhar o dia todo, ainda sair com as costas doendo de levar essa mochila. Era supervisor de telemarketing já faziam 4 anos, longos anos em que havia perdido uma parte considerável de seus 25 anos de vida. Cruzou as ruas da Av. Presidente Vargas e logo pegou o 383, rumo a Realengo. Teve a sorte de encontrar uma senhora que ofereceu-se para segurar sua mochila, no que respondeu prontamente a entregando. “Hoje está especialmente insuportável” disse a senhora, ao que Carlos respondeu com um sorriso frio, ciente de que aquilo não era verdade. Se havia uma coisa com que se podia contar todo dia era que o 383 estaria lotado. Fazia parte, pensava, da etiqueta dizer que naquele dia estava especialmente cheio, talvez tentando se convencer que aquele inferno não se repetiria eternamente. De qualquer forma, se dizia isso com uma voz de revolta contida, quase casual.

Estava indo encontrar Gabriel, amigo que morava perto de sua casa. Nos últimos dias estava particularmente mal humorado, pois Alice, até então sua namorada, havia o largado para ficar com um cara da zona sul. Devia ser rico, como culpá-la de querer sair dessa porcaria de vida. Olhou para a UERJ distraído, e de volta às pessoas no ônibus lotado. Pareciam mortos-vivos, o que ele tornaria-se certamente também em questão de tempo. Não gostava tanto dela, mas sentia-se preso naquela terrível rotina desde o término, ideia que o enojava.

Desceu no ponto anterior ao de sua casa e lá estava Gabriel. Tinha também 25 anos e um corpo atlético, além de um cabelo curto e negro armado com algum tipo de creme que Carlos nunca teve a curiosidade de perguntar. Se conheciam desde o ensino médio, o que era bastante coisa para o tempo médio em que ele se propunha a ter amigos. Gabriel trabalhava como vendedor em uma loja de livros. Cumprimentaram-se e começaram a caminhar a esmo, a procura de um bar.

– Carlinhos, você não sabe o que aconteceu: estava lá no estoque da loja e tive uma ideia incrível para um livro! Pode também virar um filme, sobre dois policiais que vão atrás de um psicopata … – nesse momento, Carlos parou de ouvir. Era sempre assim, Gabriel vinha com alguma ideia maluca e irrealizável à espera de sua grande chance. Geralmente recebia apoio do amigo, mas naquele dia Carlos não conseguia sequer encará-lo. Via seu amigo e, por mais que buscasse negar isso, sentia repulsa. Virou a cara procurando um bar nas redondezas, e assim que achou um com uma cara amigável seguiu, sem esperar pelo amigo, na esperança de cortar o assunto. “Hei!” gritou-lhe Gabriel, botando-se a correr atrás dele “você está ouvindo alguma coisa do que eu estou falando?”

– Sim, claro. – respondeu secamente.

Percebeu que o amigo ficara magoado, pois sem responder sentou na cadeira do bar e ficou olhando para baixo. Carlos percebeu que havia agido de forma grosseira, mas não sentia-se disposto a todo o processo de desculpas. Apenas sentou em frente a ele, sem mais palavras.

– Porra cara, essa é uma boa ideia… – disse Gabriel, com voz de resmungar.

Carlos apenas acenou com a cabeça, com o olhar distraído no horizonte.

O garçom passou por ali no mesmo momento. Pediram a primeira cerveja. Ele se foi e ficou um silêncio na mesa. Os dois se encararam algum tempo, incomodados com o silêncio mas sem saber como abordar o assunto.

– Cara, você não se anima mais com porra nenhuma, você não era assim. Não sei onde quer ir com essa palhaçada. – iniciou Gabriel.

– Eu não tenho ideia, mas sei que você certamente não vai a lugar nenhum. – disse Carlos. O calor naquele lugar estava insuportável, o que o fez limpar a testa com a manga da camisa.

Gabriel olhou-o com uma cara chocada. Estava acostumado com os dias mal humorados do amigo, mas dessa vez ele estava se superando.

– Pelo menos eu confio em mim mesmo – disse Gabriel, tentando enfatizar a frase com toda convicção que tinha.

– Porra nenhuma. – e, as palavras vindo como uma força que não se pode frear, continuou – Você quer que eu acredite nisso porque nem você acredita, e precisa que eu te convença. O que você é? Um pé-rapado vendedor de loja com 25 anos de idade, sem ensino superior e com uma cabeça cheia de besteira. Me diz Gabriel, vai dar certo? Vai dar certo mesmo? Tu acha que é assim, inventa uma merda de filme, manda para um mané qualquer e o estrelato vem?

O garçom nesse momento veio servir a cerveja, o que precipitou mais um silêncio na mesa. Ainda que estivessem em uma discussão séria, mantinham a etiqueta e a decência de não envolver o homem que ali trabalhava. Após a cerveja servida, em um gesto automático, os dois brindaram e beberam um gole.

– Tu tá é confortável nessa merda de vida. Aí fala que eu não vou conseguir nada…

– Porque tu não vai!

– Tu não sabe! – o grito saiu mais alto do que Gabriel gostaria, mas era ao mesmo tempo um desabafo – E digo mais: prefiro viver sonhando à toa do que ser um merda que nem tu. Num acredita em nada, não gosta de ninguém. Por isso que a Alice te deixou.

A lembrança passou pela espinha de Carlos como um sopro frio. Gabriel percebeu que fora longe demais.

– Desculpa cara, mas… – emendou Gabriel

– Não, você tem razão – cortou-o novamente Carlos.

Não que o pensamento nunca tivesse lhe ocorrido antes, mas aquelas palavras ditas assim, por um amigo, era diferente. Parou um tempo, pensativo.

– A verdade é que você precisa me achar um sonhador para que sua vida pareça ser a única alternativa realista. – disse Gabriel, mais calmo, ao fim de um tempo.

– E você precisa me achar um merda para que seus sonhos pareçam ser alguma alternativa. – respondeu Carlos, ainda pensativo, concluindo a frase com um sorriso provocador.

Gabriel sorriu de volta. Carlos olhou ao redor no bar. Todos estavam se divertindo – ou ao menos pareciam. O calor havia abrandado após o gole de cerveja, e o pensamento começava a caminhar livremente. Brindaram.

– Cara, tu tem que entender que tem gente aí fazendo sucesso toda hora!

– Um cara da zona sul…

– Dá para fazer cara, o filme…

– E aquele ônibus de mortos-vivos…

– Dá para fazer, não dá?

– Estamos fodidos…

– Saúde.

– Saúde.

Beberam. A noite avançava.

– Agora acho melhor ir para casa, que amanhã tenho que trabalhar. Dia de fúria é para quem tá com a vida ganha. – disse Carlos, preocupado com o horário de acordar no dia seguinte.

Despediram-se.

 

Antunes, 2013.
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Noturno apaixonado

Que pede o peito que palpita?
O toque sutil dum rosto suave,
descanso da inesgotável viagem.
Vida, surpresa em trilho, perfaz
impossível caminho. Curvo e re-
vivo esperança ora exaurida.
Insisto, minha matéria exige,
ao deleite das inconstâncias,
verdadeira humanidade – crença
animadora, luze carinhosa saudade.
Canto à sombra verso já traçado:
Amo e encontro a eternidade.

Joaquim Miguel, 2017.

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