Jornada

Nosso céu já não comporta mais tantas cores
com nossos olhares em constante ressaca
os fardos no andar pesam todas as dores
os dentes rangindo que batem como estaca

Vagueando em uma e outra notícia triste
nas pilhas dos moribundos abatidos
observo a ampulheta, grilhão no punho em riste
olho distraído, absorvo os olvidos

Eu passo alguns famélicos já quase mortos
Eu atravesso pelas florestas em chamas
Eu abandono os enfermos em suas camas

E esquivo desesperados com passos tortos
Eu, que queria ser tudo mas que sou nada,
Olho a ampulheta – acabou minha jornada.

Antunes, 2020.

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Sobre saudades

No céu a névoa some
com o brilho das estrelas
pergunto-me se você
também vê esse cenário

compartilho contigo
uma estrela esmaecida
que em meu pensamento
você igualmente olha

em uma comunhão muda
verdadeira ou imaginada
declaro a falta sentida
por tua ausência aqui

e de teus doces braços
onde os sonhos tem morada
tuas carícias que me faltam
na distância em que professo

parece tudo mais escuro
sem teu jeito doce
de iluminar a noite
e de espantar o breu

a nuvem passa pela estrela
deixando-a em céu aberto
ela brilha agora mais forte
credito isto a um sinal teu

e com um sorriso solto
de quem sabe-se bobo
deito a cabeça no travesseiro
e sonho tranquilo

Antunes, 2019.

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A um passo

Eu, caminho inseguro
em pensamentos tristes
devaneios que antagonizam
minhas poucas certezas

Eu, meu próprio inimigo
em relutâncias sem fim
um cárcere que criei
e hoje me constrange

Eu, um estampido
pronto a eclodir
um novo vulcao
irrompe em chamas

Eu, fuga de novo
isolado em meu canto
recolho o que posso
para me reconstruir

Antunes, 2019.

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Réquiem V

O amor me consumiu
como o fogo consome
um galho na fogueira

Já sem fogo
sobrou-me corpo
consumido pela chama

O amor me esmagou
serpente ao atacar
uma presa distraída

Quando se foi
sobrou-me solto
sem saber de mim

O amor ocupou o sentido
de levantar pela manhã
para novas jornadas

Quando já sem sentido
em sussurros velados
tramou meu epílogo

E do que vivi
sobraram as lágrimas
visitantes diárias
na esquina das horas

sobrou o desejo
de entre dias vazios
escapar de mim

sobrou a escuridão
das noites insones

O amor exauriu-me
____até não mais poder sobrar

Antunes, 2019.

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Joaninha

Tua pele ressoa o toque
de minhas mãos a te acariciar
dormes despreocupada
como se não tivesses que voltar

às crises e outros problemas
ao mundo que nos atravessa
teu sono tudo desafia
com sua leveza sem pressa

e eu sempre com a vida
tão tenso que me farto
admiro-te assim tranquila
no silêncio daquele quarto

Pernas entrelaçadas na coberta
ao teu cheiro mistura-se o meu
teu rosto invade meu braço
em alguma altura do breu

abres os olhos e sorri
como adivinhando os devaneios
e eu, ao sorrir de volta,
já nem lembro de meus anseios!

Antunes, 2019.

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Aos que se foram

Aqueles que se foram
deixam vazio no peito
lamentos que ecoam
onde a saudade fez leito

Mas hão de ser semente
crescer no coração
fé de seguir em frente
que não seja em vão

O que temos na memória
lembrança de cada luta
compartilhamos a história
o legado nos escuta

Em mim eu os levo ainda
carregados como estandarte
como lição que não finda
se minha estrada se parte

Outros virão depois de nós
ciclo que se desafia
não estaremos a sós
na história que porfia

Antunes, 2019.

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Graciosa

Hoje quando te fores
tu, que agora em meus braços
repousa-te em amores
que suponho em nossos laços

Sentirei sua falta
um vazio que creio
ser vontade que exalta
que também eu receio

Calo-me no adeus
que dás afetuosa
caminhas entre os teus
em curva sinuosa

Quero-te em liberdade
mas quando tu te vais
transborda a saudade
busco-te em sinais

Eu sofro mas te deixo
espero em segredo
que voltes quando queixo
tua ausência que é meu medo

Até o dia que fores
achar no mundo enfim
teu desejo em ardores
já bem longe de mim

Antunes, 2019.

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Ao partir

O teu olhar hesitante
busca sonhos que esmaecem
como se de alguma forma
impedindo sua partida

E nós repassando os erros
perdidos sem esperança
buscando em vão no passado
resposta que não vem

Em silêncio, eu encontro
tua voz tonitruante
toco-te como se o tato
fosse capaz de responder

Pela porta o caminho
pelo mundo a proposta
e nosso olhar já decide
o que precisa escolher

Ao partir
levas contigo uma parte
de tanto que nós já fomos
tudo que compartilhamos

E nossa vida
perdendo-se um pouco
encontra novas forças
para poder recomeçar

Antunes, 2019.

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Disparo

Com seu sorriso vão
o coronel engomado
promete redenção
manipulando o Estado

segue o mesmo padrão
quando um cara armado
fala que a solução
é o ódio no atacado

É o mesmo patrão
para ambos os lados
que para manutenção
de privilegiado

esconde informação
te quer manipulado
pois na mira estão
do cano disparado

quem sofre opressão
quem é abusado
é o trabalhador
é o desempregado

que constrói a nação
com o suor trabalhado
não com corrupção
como o deputado

não mora em mansão
pra viver isolado
e nessa confusão
seu caminho trilhado

é a mobilização
para ter restaurado
o direito ao pão
e a ser respeitado

por isso eu digo não
abandonemos o fardo
de ser mais um peão
desse jogo viciado

com a nossa união
derrubar o reinado
e já sem acordão
sem o ódio espalhado

juntos em comunhão
novo mundo esperado
será em nossa mão
que ele será gestado

Antunes, 2018.

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Uma tarde em SP

Sentada ela vê
as cores reluzirem
naquela tarde fria
em São Paulo

“Não garota,
sai daqui, não é
seu lugar”, diz um
vertido sobre seu corpo

Ela olha-o, reluz
sua face gotejando
barbas sujas misturando-se
com a fuligem

“Não é seu lugar”, repete
aumenta o brilho das cores
o casaco cinzento protege
o velho do frio

Um homem corre pela rua
quase tromba com ela
não baixa os olhos para vê-la
nem ela o vê

Perdida em pensamentos
opacos e diversos
sente-se finalmente bem
não sai dali.

Muita gente junta, ela encosta
a cabeça em um banco, um casal
bastante magro carrega um colchão
com um caixote de madeira em cima

Outro passa com seu carrinho
e com seu fiel cachorro
caminha molemente
“na outra calçada eles têm pressa”

Ele cumprimenta o velho de barba
enquanto se cobre com cobertor
para aplacar o frio
da tarde em São Paulo

A rua é suja, tremula do outro lado
uma bandeira velha do Brasil
em algum prédio público. Já ali
fede a mijo

Estampido e neblina se espalha
é a polícia, dizem, e o ar acaba
respirar é insuportável, ela levanta
tremula para andar, tal qual a bandeira

Outra bomba, mais gás, e ela corre
“seu lugar não é aqui”, diz o velho
enquanto corre por ela. Ou será outro?
Para onde corre?

A confusão não lhe deixa pensar
na terceira explosão sem destino
na terceira explosão correm,
indesejáveis, espalham-se

Sozinha, não sabe onde ir
passa o homem com o carrinho
e com seu cachorro. Ela o segue.
Há de haver outro Eldorado.

Antunes, 2017.


Reincluindo o poema…

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